Crítica

Invertidamente estreia na Globo com boa química com Eliana, mas audiência mostra que novidade ainda precisa provar sua força

Versão brasileira do formato holandês Upside Down aposta em humor, tecnologia e competição familiar para renovar o Em Família com Eliana, mas estreia evidencia que um quadro visualmente impactante, sozinho, não resolve os desafios do programa nas tardes de domingo

Publicado em 27/07/2026

A Globo colocou no ar neste domingo (26), uma de suas principais apostas para fortalecer o Em Família com Eliana: o Invertidamente, versão brasileira do formato holandês Upside Down. Visualmente diferente, divertido e perfeitamente compatível com o estilo de comunicação de Eliana, o novo quadro representa um passo importante na busca por uma identidade mais clara para o programa. Porém, os primeiros números de audiência mostram que ainda existe uma distância considerável entre chamar atenção e efetivamente ampliar o público da atração.

Na estreia, Rainer Cadete e Jonathan Azevedo, acompanhados de familiares, foram colocados diante de uma série de desafios envolvendo equilíbrio, percepção e coordenação. O elemento central é uma enorme caixa capaz de girar verticalmente, fazendo com que participantes e cenário fiquem literalmente de cabeça para baixo. Além disso, o quadro incorpora provas de ilusão de ótica e a participação de Beto Parro e Rafa Moritz, Os Mentalistas, explorando experiências relacionadas à percepção humana.

O conceito é simples, mas funciona especialmente bem na televisão: basta olhar alguns segundos para a tela para entender que alguma coisa diferente está acontecendo. E talvez esteja justamente aí o maior acerto do Invertidamente.

Um quadro que finalmente dá ao programa uma atração visual forte

Desde sua estreia, o Em Família com Eliana vem procurando equilibrar histórias emocionantes, música, entrevistas, encontros familiares e brincadeiras de auditório. A proposta é coerente com a trajetória da apresentadora, mas também corre o risco de produzir um programa excessivamente fragmentado. O Invertidamente ajuda a preencher uma lacuna importante porque oferece uma atração com identidade visual própria.

A enorme estrutura giratória, os participantes tentando executar tarefas enquanto perdem completamente a referência de chão e teto e as provas envolvendo percepção produzem situações naturalmente engraçadas. É um tipo de entretenimento que praticamente dispensa roteiro para gerar humor: a graça está na reação genuína das pessoas.

Segundo a própria Globo, as famílias acumulam pontos durante as provas, enquanto diferentes experiências alteram sua percepção da realidade. Na estreia, houve inclusive uma disputa de pênaltis utilizando óculos que invertiam a visão dos participantes. Isso também torna o quadro bastante adequado ao consumo contemporâneo de televisão.

As quedas, erros, reações e momentos inesperados podem facilmente ser transformados em vídeos curtos para redes sociais. Em outras palavras, o Invertidamente tem uma característica que qualquer programa de variedades atualmente procura: potencial de recorte e viralização.

Eliana está no ambiente em que funciona melhor

Outro ponto positivo é que o formato combina com Eliana. A apresentadora construiu boa parte de sua carreira comandando games, provas, brincadeiras com famosos e atrações familiares. Ela sabe reagir ao improviso e, principalmente, consegue participar da diversão sem disputar protagonismo com os convidados. É uma característica importante.

O Invertidamente não exige uma apresentadora que explique excessivamente as regras. Precisa de alguém capaz de conduzir o caos provocado pelo próprio formato. Nesse aspecto, Eliana parece bastante confortável.

Há também uma sintonia conceitual evidente com o programa. O diretor Geninho Simonetti afirmou que a intenção é justamente utilizar humor, desafios e interação entre familiares para manter diferentes gerações reunidas diante da televisão.

A ideia faz sentido. Mais do que simplesmente importar um game estrangeiro, a Globo encontrou uma maneira de incorporá-lo ao conceito familiar que tenta estabelecer para a atração.

Mas existe um problema: o formato original nunca foi exatamente um fenômeno

Apesar da apresentação da novidade como uma grande aposta internacional, a trajetória de Upside Down merece ser observada com alguma cautela.

Criado pela Endemol Shine Holanda, o formato foi anunciado originalmente para a televisão aberta holandesa, mas acabou sendo deslocado antes mesmo da estreia para o Videoland, plataforma de streaming do mesmo grupo da RTL. A produção estreou em novembro de 2023 e teve apenas uma temporada disponível.

Mais significativo ainda: o Brasil tornou-se a primeira adaptação internacional do formato fora da Holanda, depois de quase três anos sem que o programa fosse vendido para outro território. Por outro lado, Upside Down recebeu reconhecimento da própria indústria ao conquistar, em 2024, o prêmio de melhor formato de estúdio no C21/FRAPA International Format Awards.

Portanto, estamos diante de uma situação curiosa. Não se trata de um fenômeno mundial testado e aprovado em dezenas de países, como tantos outros formatos internacionais adquiridos pela televisão brasileira. Na prática, a Globo está fazendo uma aposta relativamente ousada em uma ideia que possui qualidades técnicas evidentes, mas cujo potencial comercial internacional ainda não havia sido comprovado.

E isso pode acabar sendo positivo. A televisão brasileira sempre foi particularmente competente em adaptar formatos estrangeiros e, em alguns casos, encontrar neles possibilidades que não apareceram nas versões originais.

Audiência: estreia não conseguiu impulsionar Eliana

Se artisticamente o saldo inicial é positivo, os números exigem uma análise mais cuidadosa. Segundo dados consolidados da Grande São Paulo divulgados pelo TV Pop, o Em Família com Eliana marcou 8,12 pontos de média — arredondados para 8,1 — neste domingo (26). A atração permaneceu à frente de seus concorrentes diretos da televisão aberta, mas teve audiência inferior a vários programas exibidos anteriormente pela própria Globo.

No mesmo domingo, o Globo Rural marcou 9,8 pontos, a Fórmula 1 registrou 9,0, enquanto a Temperatura Máxima também alcançou 9,8 pontos. O Esporte Espetacular, por sua vez, marcou 7,8.

Ou seja: a chegada da principal novidade desta nova fase não provocou, pelo menos imediatamente, uma explosão de audiência. Isso não significa fracasso.

Um quadro precisa de algumas semanas para criar hábito, especialmente em uma faixa tão competitiva e marcada pela fragmentação do consumo. Além disso, desde sua estreia, o programa de Eliana vem conseguindo preservar a liderança entre as emissoras de televisão aberta.

Mas os 8,1 pontos revelam que o problema do Em Família com Eliana é maior do que simplesmente encontrar um novo game. O desafio é transformar o programa em destino obrigatório do telespectador de domingo.

Repercussão e potencial nas redes

A estreia também mostrou uma característica importante para a estratégia digital da Globo: o Invertidamente é muito mais “compartilhável” do que vários segmentos tradicionais do programa.

A própria dinâmica visual — pessoas andando pelo teto, tentando se equilibrar, chutando uma bola com a percepção invertida ou reagindo às ilusões — favorece vídeos curtos e conteúdos que podem circular independentemente da exibição integral na televisão.

O material oficial divulgado após a estreia destacou justamente as situações vividas pelas famílias de Rainer Cadete e Jonathan Azevedo, com as provas dentro da caixa e o desempate realizado através da disputa de pênaltis com visão invertida.

É cedo, porém, para transformar repercussão pontual em evidência de fenômeno popular. O desempenho das próximas semanas será mais revelador para saber se o público enxergou o Invertidamente apenas como uma curiosidade ou se o quadro conseguirá construir reconhecimento próprio.

O maior desafio é não transformar novidade em repetição

Existe ainda um risco evidente. A caixa giratória é impressionante na primeira vez. Talvez também seja na segunda ou terceira. A pergunta é: continuará interessante depois de dez semanas? Esse é o principal desafio criativo do formato.

Se todas as edições forem resumidas a famosos tentando permanecer em pé enquanto o cenário gira, o impacto visual inevitavelmente diminuirá. Será necessário variar provas, convidados, estratégias e situações.

Nesse aspecto, a incorporação dos Mentalistas e das experiências relacionadas à percepção é uma decisão inteligente, porque amplia o conceito para além da caixa de 360 graus. Quanto mais o Invertidamente explorar a ideia de “inverter a realidade”, e não simplesmente colocar celebridades de cabeça para baixo, maior será sua possibilidade de longevidade.

Invertidamente é uma boa novidade, mas Eliana ainda procura seu grande fenômeno dominical

A estreia deixa uma impressão predominantemente positiva. O Invertidamente é divertido, tecnicamente bem produzido, visualmente diferente e combina com a personalidade televisiva de Eliana. Dentro do Em Família com Eliana, provavelmente está entre as ideias com maior capacidade de construir identidade própria e gerar conteúdo para além da transmissão linear.