Há artistas que chegam à autoria pela literatura, outros pela sala de roteiro. Tatá Werneck chega por um caminho particularmente interessante: o domínio da palavra falada. Sua carreira foi construída sobre uma percepção quase instantânea do ritmo, da réplica, do constrangimento e daquilo que faz uma conversa ganhar graça. Transformar essa inteligência em novela é outro desafio, muito maior e mais estrutural, mas sua estreia como autora principal parte de uma vantagem rara: Tatá conhece profundamente o tempo do público.
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1. Tatá já escreve antes de ser chamada de autora. O primeiro trunfo está justamente aí. Programas como Lady Night e E.T.: Edu e Tatádemonstraram que sua comicidade não depende apenas do improviso. Existe construção de situação, preparação para a piada e, sobretudo, ouvido para diálogo. Novela exige outra engenharia, naturalmente, mas a capacidade de criar vozes reconhecíveis é uma matéria-prima preciosa para qualquer dramaturgo.
2. A faixa das 23h pode ser o território ideal. Caso o projeto seja destinado ao horário, Tatá encontrará um espaço historicamente mais aberto à experimentação. É uma janela que permite maior liberdade de linguagem, personagens menos domesticados e um humor mais adulto. Para uma autora cuja personalidade artística nasceu justamente da quebra de convenções, essa margem pode fazer enorme diferença.
3. Ela não estará sozinha na construção do folhetim. O apoio de Cláudio Lisboa e Marcio Wilson acrescenta experiência a uma estreia naturalmente cercada de expectativa. Escrever novela significa administrar dezenas de personagens, núcleos, conflitos e capítulos sem perder ritmo. Cercar uma autora estreante de profissionais familiarizados com essa arquitetura não diminui sua assinatura; ao contrário, pode oferecer a estrutura necessária para que sua voz apareça com mais segurança.
4. Poucos artistas compreendem tão bem a circulação contemporânea da televisão. Tatá pertence simultaneamente à TV aberta e às redes sociais. Sabe como uma frase vira meme, como uma cena ganha uma segunda vida no celular e como personagens escapam do capítulo para alimentar a conversa do dia seguinte. Isso não substitui uma boa história, mas, quando existe história, amplia extraordinariamente sua capacidade de repercussão.
5. A atriz pode ser a grande professora da autora. O trabalho em Quem Ama Cuida reforça uma característica importante de sua maturidade: Tatá já não precisa transformar cada aparição em demonstração de humor. Ao lidar com uma personagem que pede comicidade e densidade psicológica, exercita justamente aquilo de que uma boa novela necessita: mudança de registro. Se levar para a escrita a mesma disposição para compreender o drama por trás da graça, sua estreia poderá escapar da armadilha de ser apenas uma novela de humor.
O projeto ainda precisará enfrentar o teste que nenhuma reputação resolve antecipadamente: a tela. Uma grande personalidade não produz automaticamente uma grande novela. Mas Tatá Werneck começa cercada por algo mais promissor do que expectativa: repertório, experiência, colaboradores e uma compreensão incomum do público. Sua primeira novela ainda nem chegou ao ar, mas já nasce com ingredientes suficientes para ser observada não como uma curiosidade de celebridade, e sim como a estreia de uma nova autora que pode ter bastante coisa a dizer.
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