Calma! A expectativa dos fãs e do mercado é elevada. Mas, por enquanto, o retorno de Chaves e Chapolin ocorre apenas na TV norte-americana Unimax. Como a razão da suspensão em 2020 foi a mesma, abre-se jurisprudência para que voltem a ser exibidos em outras partes do planeta após renegociações pontuais.
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Uma espécie de liminar mexicana permite que voltem ao ar, enquanto se arrasta a batalha judicial entre os herdeiros do protagonista Roberto Bolaños e a Rede Televisa. No Brasil, variáveis mercadológicas podem complicar o processo. Entre elas: mudanças na conjuntura, novas estratégias e, principalmente a ausência da expertise administrativa do Homem do Baú nas negociações
Reviravolta de Sílvio Santos
Depois de sempre perder em audiência em qualquer horário em que eram exibidos os seriados de Bolaños , a Rede Globo tentou, em 2005, adquirir os direitos. Quando parecia que tudo estava acertado, veio a reviravolta. Não contavam com a astúcia de Sílvio Santos.
Com seu jeito peculiar, procurou diretamente os diretores da emissora estrangeira, apelando para os laços históricos e emocionais entre os dois canais. Mas o que realmente convenceu os executivos foi quando Senhor Abravanel apontou a fama da Globo de comprar produtos ou contratar artistas populares apenas para retirá-los da concorrência, sem nunca exibi-los ou subaproveitá-los.
Esse foi o ponto decisivo. Naquela época, boa parte do faturamento do conteúdo da Televisa já vinha do licenciamento de venda de produtos. Sendo assim, não valia a pena correr o risco de ficarem arquivados perdendo valor de mercado.
No entanto, Sílvio Santos, que havia adquirido Chaves e Chapolin praticamente de graça, teve que raspar os cofres do SBT para pagar, na época, 1,5 milhão de dólares na mesa de renegociações.
De renegado a trunfo do SBT
Quando ainda possuía apenas a TVS, Sílvio Santos estava de olho nas novelas mexicanas, que tinham baixo custo de produção. Contudo, a Televisa só vendia pacotes contendo produtos variados. E junto com os melodramas vieram as renegadas fitas em VHS de Chaves e Chapolin.
Como, na época da formação da Rede SBT, um dos maiores problemas era preencher a grade de programação, as atrações estreladas por Roberto Bolaños começaram a ser exibidas de forma despretensiosa em 1984, em horários secundários, na conhecida “roda gigante” de Sílvio Santos, onde a cada dia eram apresentadas em horários diferentes.
A grande surpresa foi que essas atrações se destacaram, garantindo sempre bons índices no velho Ibope, independentemente de quando eram transmitidas.
Mudança de Mercado
O afastamento de Sílvio Santos das decisões do dia a dia já havia provocado um abalo nessa sólida parceria com a Televisa. Em 2018, deixaram escapar para a concorrência seu talismã. As Organizações Globo aproveitaram-se de uma brecha no antigo contrato e conseguiram arrematar os dois seriados para serem exibidos no Multishow.
Pouco antes da proibição mundial, já estavam em avançado processo de negociação para a transferência dos direitos de exibição em streaming da Amazon Prime para sua plataforma, o Globoplay. Um dos trunfos apresentados pelo Grupo Globo foi o investimento que fizeram na requalificação dos seriados. Quando adquiriram as 523 fitas com Chaves e Chapolin, encontraram no pacote 244 capítulos inéditos, que sequer haviam sido dublados pelo SBT, pois os mesmos episódios repetidos exaustivamente já garantiam audiência.
O Grupo da Família Marinho investiu pesado na contratação dos mesmos dubladores ainda vivos. Porém, como optaram por exibir os episódios em ordem cronológica, foram surpreendidos pela proibição de 2020. Tanto que antes de serem notificados oficialmente tentaram desesperadamente programar os episódios restantes, promovendo uma maratona entre os fãs. Não se sabe ao certo se, nessa corrida final, as raridades em seu estoque chegaram a ser exibidas.
Salvador do + SBT
Com o declínio das televisões aberta e paga, os serviços de streaming estão cada vez mais em alta. E entre as grandes redes, a de Sílvio Santos foi a última a entrar neste segmento. Um fator complicador foi que o lançamento oficial ainda coincidiu com a morte do comunicador.
Não seria interessante recomprar os direitos apenas para a TV aberta sem incluir, no pacote, a extensão ao SBT+. Essa aquisição poderia ser a tábua de salvação para firmar a entrada desse novo empreendimento em um mercado já muito disputado e consolidado por grandes players, como o Globoplay e a Netflix, que pode superar a todos caso firme um contrato de direitos mundiais.
A batalha será árdua para arrematar Bolaños, que volta ao mercado inflacionado pela alta popularidade e pela expectativa após quatro anos de ausência. Com o recente anúncio de contenções de gastos, a direção do SBT sabe que esse investimento será elevado e que, agora, entrará na disputa desfalcado de seu maior trunfo: o inigualável poder de persuasão de Sílvio Santos.
