Há violências que não chegam com grito. Algumas aparecem à mesa, entre um prato servido e uma frase dita como se fosse costume. Em Quem Ama Cuida, uma cena envolvendo Otoniel (Tony Ramos) e o neto Maurício, o Mau Mau (João Victor Gonçalves) provocou esse desconforto raro: aquele nó na garganta que nasce quando o público reconhece, dentro da ficção, uma ferida que ainda mora em muitas famílias.
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A situação parte de um gesto simples. Mau Mau prepara a janta da família, mas o que poderia ser lido como cuidado vira alvo de julgamento. Para Otoniel, preso a uma visão antiga de masculinidade, homem não cozinha. A frase pesa não apenas pelo conteúdo, mas pelo que ela tenta corrigir no neto: o jeito, a sensibilidade, a expressão, a liberdade de existir sem precisar caber em um modelo estreito de homem.
Tony Ramos entrega a cena com a precisão de quem compreende a complexidade do personagem. Otoniel não aparece como um monstro de novela, e talvez por isso incomode tanto. Ele surge como alguém reconhecível: o avô conservador, afetuoso em certos momentos, mas atravessado por preconceitos que ferem justamente quem ele deveria acolher. A atuação não suaviza a dureza da fala; ao contrário, deixa exposta a crueldade cotidiana escondida sob o nome de tradição.
É aí que Quem Ama Cuida acerta ao levar o debate para dentro de casa. A homofobia velada muitas vezes não se apresenta como ataque direto, mas como piada, correção, reprovação, tentativa de podar gestos e afetos. Ao mostrar Mau Mau diante dessa pressão familiar, a novela transforma uma cena doméstica em comentário social. E Tony Ramos, inteiro no papel, faz do incômodo um espelho: difícil de olhar, mas necessário.
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