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Opinião: Pilar expõe a maternidade sem amor em Quem Ama Cuida

Isabel Teixeira transforma a relação cruel da vilã com Brigitte em uma das camadas mais incômodas da novela das nove

Publicado em 23/06/2026

Há uma ideia confortável, repetida como verdade absoluta, de que toda mãe ama, protege, acolhe e se sacrifica. A televisão, quando tem coragem, desmonta esse altar sem destruir a complexidade humana. Quem Ama Cuida toca justamente nessa ferida: existem maternidades que não aquecem, não amparam, não salvam. Existem mães que ferem. Ao colocar Pilar diante dos filhos, a novela lembra que o laço de sangue, sozinho, não garante afeto.

Isabel Teixeira tem construído uma mulher assustadoramente reconhecível. Pilar não é apenas a vilã que arma contra os outros, disputa herança ou manipula os corredores da família Brandão. Ela é também uma mãe incapaz de oferecer ternura sem cobrança, presença sem humilhação, autoridade sem crueldade. Nas cenas com Brigitte, personagem de Tatá Werneck, isso aparece de forma cortante. Quando chama a própria filha de carma, Pilar atravessa uma fronteira brutal: transforma uma filha em peso, castigo e incômodo existencial.

O mais dilacerante é que essa mulher existe fora da ficção. Está nas famílias que chamam controle de cuidado, nas mães que usam culpa como coleira e nas relações em que a aparência de afeto esconde vínculos profundamente adoecidos. Pilar não ama de forma limpa, porque tudo nela passa pela vaidade, pelo domínio e pela necessidade de superioridade. Brigitte, nesse ambiente, não é vista como filha, mas como uma extensão imperfeita de uma mãe que só aceita amar aquilo que obedece.

Sob o crivo de Amora Mautner, essas cenas não surgem como excesso melodramático, mas como incômodo necessário. A direção sabe deixar o silêncio doer e fazer uma frase cruel ecoar depois que a cena termina. Isabel Teixeira, inteira no papel, entrega uma maternidade sem abrigo, uma mãe que machuca justamente onde deveria proteger. Quem Ama Cuida acerta porque não romantiza o laço familiar: mostra que, às vezes, a casa também é o lugar onde o coração aprende a se defender.

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