A televisão costuma premiar personagens espalhafatosos. São eles que rendem memes, bordões e cortes nas redes sociais. Mas existe outra categoria de atuação, mais rara e mais duradoura, que se sustenta não pelo excesso, mas pela precisão. É nesse território que Guilherme Piva vem realizando um dos trabalhos mais elegantes de Quem Ama Cuida. Seu Edvaldo não grita, não busca o centro da cena a qualquer custo e tampouco depende de grandes explosões emocionais para existir. Ainda assim, poucas presenças na novela carregam tanta densidade quanto a dele.
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Não chega a ser surpresa. Piva é um ator moldado pelo teatro, desses que parecem ter o sangue do palco correndo nas veias. Há uma disciplina artística evidente em cada aparição. O intérprete compreende algo que os grandes nomes da dramaturgia aprendem cedo: personagens não são feitos apenas de texto, mas também de silêncio, de intenção e de tudo aquilo que permanece escondido entre uma fala e outra. Como Edvaldo, o fiel secretário de Arthur Brandão, personagem de Antonio Fagundes, ele transforma uma função que poderia ser apenas acessória em uma das figuras mais intrigantes da trama.
Após a morte de Arthur, Edvaldo passa a servir Pilar, vivida por Isabel Teixeira, numa dinâmica marcada por humilhações e disputas de poder. Em mãos menos experientes, o personagem correria o risco de se tornar apenas um alívio cômico ou um funcionário ressentido. Guilherme Piva escolhe um caminho mais sofisticado. Seu Edvaldo responde com ironia, observa mais do que fala e parece sempre saber algo que os demais desconhecem. Essa construção ajuda a explicar por que o personagem figura constantemente entre os suspeitos do crime que movimenta a novela. O ator trabalha a ambiguidade com rara inteligência, permitindo que o público oscile entre a confiança e a desconfiança a cada nova cena.
Há algo de profundamente teatral em sua atuação, no melhor sentido da palavra. Não pelo exagero, mas pelo rigor. Piva demonstra domínio absoluto da composição de personagem e entende que a força dramática muitas vezes está nos detalhes. Quando Edvaldo é pressionado no julgamento de Adriana, interpretada por Letícia Colin, ou quando entra em conflito com Diná, personagem de Rosi Campos, o ator evita soluções fáceis. Prefere os caminhos sinuosos, onde vivem os personagens verdadeiramente interessantes. Em Quem Ama Cuida, Guilherme Piva lembra que talento não está apenas em emocionar ou divertir. Está em criar alguém tão complexo que o público nunca consegue ter certeza de quem ele realmente é. E poucos elogios são maiores para um ator.
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