Baixo orçamento

Autor de Família é Tudo expõe falta de recursos e novas ordens da Globo para novelas: “as vezes não dava”

Segundo Ortiz, a limitação imposta pelo canal acabou comprometendo, inclusive, algumas tramas de Família é Tudo

Publicado em 30/09/2024

Daniel Ortiz encerrou sua quarta novela na Globo na última sexta-feira (27) com certa decepção. Isso porque, conforme o próprio autor de Família é Tudo, os recursos da emissora para seu folhetim foram bem mais escassos em comparação com as obras anteriores. Segundo Ortiz, a limitação imposta pelo canal acabou comprometendo, inclusive, algumas tramas que ele havia planejado para a comédia das 19 horas.

De acordo com o novelista, praticamente tudo em Família é Tudo deveria acontecer nos estúdios Globo e havia uma quantidade máxima de cenas fora dos cenários permitidas por semana. Como exemplo de história prejudicada, o autor cita a trama de Nicole (Aisha Moura).

“O que acontece é assim: a locação do skate era fora dos Estúdios Globo. E você tem um número X de cenas que pode gravar por semana fora dos Estúdios Globo, sem impactar a produção, a produtividade. Então, digamos, esse X de cenas era no máximo 10% por semana. Às vezes não dava pra fazer mais de 5%. Então acabou que não deu pra desenvolver o skate como eu gostaria por uma questão mais de produção”, explica Ortiz em entrevista ao Notícias da TV.

Nicole (Aisha Moura) desmascara Plutão (Isacque Lopes) em Família É Tudo
Nicole (Aisha Moura) e Plutão (Isacque Lopes) em Família É Tudo

Conforme o escritor, a emissora não tinha recursos nem para construir uma pista de skate nos estúdios. Assim, o baixo orçamento atestado explica também quantidade de cenas bizarras de personagens em seus carros com Chroma Key ilustrando a paisagem ao redor – muitas vezes com defeito na hora da montagem.

“Acho que por isso ficou essa impressão de que não funcionou. Era mais uma questão de que, se a gente tivesse condições de fazer uma pista de skate dentro dos Estúdios Globo, talvez eu tivesse aprofundado mais esse núcleo. A Nicole funcionou muito bem, foi muito bem vista no grupo de discussão. Então eu tive que tirá-la de lá e trazê-la pra dentro dos Estúdios Globo, para [os cenários da] gravadora, do restaurante, pra poder desenvolver mais essa história”, destaca.

Daniel também revela que Família é Tudo estreou com 90 capítulos escritos – uma frente muito grande e incomum no antigo padrão Globo, mas que agora tornou-se protocolar. O autor ainda conta que não sabia quem seriam os atores responsáveis por cada personagem até enquanto escrevia por volta do capítulo 60, e isso foi um desafio para que ele pudesse ter alguma noção se certas tramas dariam certo ou não.

“As [novelas] anteriores eu começava com 50, 60 [capítulos prontos]. Agora você tem que começar com um pouco mais de capítulos. Foi um processo diferente, porque você escreve quase metade da novela no escuro. Nas outras novelas não, você começava com no máximo 60 capítulos, e, lá pelo capítulo 30, 20, já sabia mais ou menos quem eram os atores, tinha um pouco mais de segurança pra escrever, ainda mais sendo comédia. Pra mim, [comédia] é o gênero mais difícil, porque não depende só do texto. Depende do ator, da direção, de tudo. Se você escreve 50 capítulos sem saber quem são os atores, é muito desafiador”, reflete.

Por fim, Daniel faz sua avaliação final sobre a novela das sete encerrada na sexta (27). “Foi muito difícil, foi a mais difícil de todas, até porque mudou muita coisa no processo de produção, você tem menos recursos do que antigamente. Então foi muito mais difícil, mais desafiador. Mas foi muito bom, gostei muito. Foi um projeto de família mesmo. A equipe toda era uma família se ajudando, foi incrível”, pontua.

Catarina (Arlete Salles) não apareceu no último capítulo de Família é Tudo
Catarina (Arlete Salles) não apareceu no último capítulo de Família é Tudo