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Como o Sem Censura resgatou a vocação musical na TV pública

Atrações do programa reforçam o acervo da TV Brasil

Publicado em 29/12/2024

Durante as negociações de contratação ficou acertado que o retorno do programa Sem Censura contaria com edições ao vivo até quinta-feira, deixando o último dia útil da semana para que a nova apresentadora Cissa Guimarães pudesse conciliar com suas outras atividades como a turnê nacional da peça “Doidas e Santas” e para gravações em produções audiovisuais, incluindo participações especiais em sua antiga empregadora, a Globo.

Entre as soluções apresentadas para manter a grade linear e não deixar um buraco semanal: programar uma atração diferente para esse dia, substituir por outro apresentador ou gravar uma edição fria mesmo correndo o forte risco de caducar devido ao caráter factual do programa.

Tapa Buraco

Diante do impasse, aproveitaram a singularidade mais alegre e despojada desse dia da semana para preencher a grade com musicais temáticos homenageando grandes nomes. A engajada equipe até agora, na maioria das vezes tem conseguido cumprir essa tarefa de forma satisfatória. Porém, com o passar do tempo tende ao esgotamento natural.

Além disso, nem sempre um homenageado tem bagagem, carisma, tempo de carreira ou material suficientes para renderem as intermináveis duas horas corridas de audiovisual, que dependendo da atração, pode parecer uma eternidade.

E ainda enfrenta como agravante, a inviabilidade da utilização da interação, recurso que garante o tradicional dinamismo das edições ao vivo do Sem Censura em que as participações dos telespectadores conta como termômetro e para ajudar na condução da apresentação.

Sextas Musicais

Porém, além de ocupar a brecha aberta nas sextas-feiras, de quebra, a produção acabou preenchendo uma lacuna no conteúdo que a Empresa Brasileira de Comunicação nunca conseguiu manter. Mesmo sem intenção, o Sem Censura ajuda a resgatar a vocação musical da antiga TVE do Rio de Janeiro transformada compulsoriamente em TV Brasil.

Nessa mudança administrativa foi praticamente descartada a produção própria de atrações temáticas, um vácuo que perpassou os governos petistas e as gestões Temer e Bolsonaro. Ressaltando que apenas gravar um show externo para posteriormente jogar no ar ou entrevistar cantores em seus espaços jornalísticos não faz do canal um genuíno produtor musical.

Se os arquivos não tiverem sido negligenciados ou criminalmente apagados para regravação em cima, as relíquias da emissora carioca formam o maior acervo musical gerados entre as décadas de 1970 e 2000. O material é sempre requisitado para criação de reconstituições e documentários, além de atender a consultas de pesquisadores e historiadores.

Resgate do Acervo

O rico material é fruto de participações em seus inúmeros programas e especiais que registraram praticamente quase todos os cantores, compositores e músicos que atuaram até os anos 2000. A estatal ainda contou com atuação em seu quadro de funcionários de renomados especialistas, roteiristas, produtores musicais e instrumentistas na fase denominada TVE.

A Educativa carioca se deu ao luxo de ter como seu primeiro diretor musical Fernando Lobo, pai de Edu Lobo e autor do clássico da MPB como “Chuvas de Verão”. Pessoalmente criou e dirigiu os antológicos programas Chão de Estrelas e É preciso cantar que receberam boa parte da história da música brasileira. Na década de 90, Fernando foi substituído por outra figura significativa do segmento, Lúcio Alves.

O acervo ainda foi enriquecido com material gerado pelos programas Água Viva e Lira do Povo produzidos pelo poeta Hermínio Belo de Carvalho, que entre as inúmeras contribuições para a MPB, o descobrimento da icônica Clementina de Jesus.

Outros nomes de peso que ajudaram a embalar a grade de programação: Grande Otelo – com Os Astros, Eduardo Dusek – que registrou com seu Alô Bar Brasil a rara presença de Tim Maia, Luiz Carlos Mieli e Patrícia Palumbo – com as séries musicais, além de Haroldo Costa, Ricardo Cravo Albin, Fernando Pamplona, Albino Pinheiro entre outros.

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