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Opinião: O olhar feminino que salvou o julgamento de Adriana do melodrama fácil

Sob a condução de Amora Mautner, Nathalia Ribas dirige sequência de Quem Ama Cuida com precisão, escuta e rara verdade emocional

Publicado em 17/06/2026

A televisão costuma ser julgada pelo que explode. Mas, muitas vezes, sua grandeza está no que ela escolhe conter. No julgamento de Adrianaem Quem Ama Cuida, a força da cena não veio do excesso, nem da tentativa de arrancar emoção a qualquer custo. Veio de uma direção que entendeu a gravidade daquele momento e tratou a dor como matéria sensível. Sob a batuta de Amora MautnerNathalia Ribas conduziu uma das sequências mais delicadas da novela das nove com um domínio raro de tom, tempo e respiração.

A cena tinha todos os elementos para cair na armadilha do melodrama mais ruidoso: uma mulher injustiçada, uma condenação devastadora, um amor declarado no limite da perda e um beijo antes da separação. Mas a direção escolheu outro caminho. Letícia Colin, como Adriana, não foi empurrada para o desespero ornamental. A atriz foi amparada por uma mise-en-scène que confiou em seu rosto, em seus silêncios e na dor acumulada no corpo. O sofrimento apareceu sem precisar ser sublinhado. E justamente por isso atingiu mais fundo.

O beijo entre Adriana e Pedro, vivido por Chay Suede, também escapou do lugar comum. Não houve ali apenas a recompensa romântica esperada pelo público. Houve uma espécie de urgência triste, quase uma promessa feita tarde demais. Nathalia Ribas parece compreender que o melodrama só permanece quando a câmera não violenta o sentimento. O enquadramento, o ritmo e a entrega dos atores construíram uma despedida provisória, mas emocionalmente definitiva. Era amor, sim, mas também derrota, medo e resistência.

Há, nessa sequência, um dado que merece ser observado com mais atenção: Quem Ama Cuida é uma novela atravessada por mulheres em posições decisivas de criação e comando. Amora Mautner imprime a régua artística da obra, Nathalia Ribas assina a direção de uma passagem central, e a equipe feminina que sustenta parte importante desse processo ajuda a dar à novela uma textura menos óbvia. Não se trata de essencializar um suposto olhar feminino, mas de reconhecer um tipo de escuta cênica que evita esmagar a emoção dos personagens. Há firmeza, não suavidade decorativa. Há comando, não delicadeza como enfeite.

É nesse equilíbrio que Quem Ama Cuida encontra um de seus melhores momentos. A sequência do julgamento não brilha apenas porque move a trama. Brilha porque revela um entendimento sofisticado do popular. A novela fala com muita gente, mas não trata o público como alguém incapaz de perceber nuance. Ao contrário, confia que a pausa, o olhar e o silêncio também comunicam. Nathalia Ribas, sob o desenho maior de Amora Mautner, transforma uma cena de tribunal em experiência emocional. E lembra que, quando há tato, técnica e verdade, a televisão ainda sabe cortar o coração sem perder a elegância.

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