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Opinião: Maior acerto de Amauri Soares na Globo é apostar em talentos que duram

Ao valorizar veteranos e abrir espaço para autoras como Claudia Souto no horário nobre, executivo consolida um modelo de liderança que combina memória, renovação e inteligência criativa

Publicado em 03/06/2026

Há executivos que administram empresas. Outros ajudam a definir a cultura de uma empresa. A trajetória de Amauri Soares na Globo parece caminhar justamente nessa segunda direção. Após quase quatro décadas de casa, sua gestão tem produzido resultados que não podem ser medidos apenas por índices de audiência, faturamento ou desempenho de mercado. Alguns dos movimentos mais relevantes de sua passagem pelo comando da emissora revelam algo mais raro: uma compreensão profunda de que televisão também é patrimônio humano.

Num setor historicamente marcado pela velocidade, pela renovação permanente e pela busca incessante pelo próximo sucesso, Amauri escolheu olhar para trás sem nostalgia e para frente sem amnésia. É uma diferença importante. Em vez de tratar a experiência como um peso ou um custo, passou a enxergá-la como um ativo.

Talvez nenhum gesto simbolize melhor essa visão do que a iniciativa de oferecer contratos permanentes a atores da melhor idade, profissionais que dedicaram décadas de suas vidas à construção do audiovisual brasileiro. Em um país onde a longevidade profissional frequentemente se transforma em insegurança, a medida representa mais do que estabilidade financeira.

Representa respeito.

Representa reconhecimento.

Representa dignidade.

E talvez exista um aspecto ainda mais valioso nessa decisão. Para muitos desses artistas, o benefício mais importante nem seja o valor mensal do contrato, mas a manutenção do plano de saúde. Quem conhece a realidade brasileira sabe o peso que essa garantia adquire com o passar dos anos. Em muitos casos, trata-se de uma segurança que vale mais do que qualquer remuneração imediata.

A iniciativa revela sensibilidade administrativa, mas também algo mais pessoal. Amauri pertence a uma geração que cresceu assistindo a muitos desses intérpretes dentro de casa. Antes de ocupar cargos de liderança, foi espectador. Antes de comandar a televisão, viveu a experiência de ser impactado por ela.

Talvez por isso compreenda tão bem que a televisão brasileira não foi construída apenas por marcas ou programas. Foi construída por rostos, vozes, personagens e artistas que atravessaram gerações.

Como costumava dizer minha falecida avó, diante da velha televisão da sala, aquela era a caixa quadrada que reunia o país inteiro por alguns instantes. E muitos dos profissionais agora protegidos por essa política ajudaram a transformar aquela caixa em memória afetiva coletiva.

Mas se a preservação da história revela uma virtude importante de sua liderança, outro movimento recente talvez represente seu gesto mais visionário para o futuro da dramaturgia brasileira.

A promoção de Claudia Souto ao posto de coautora de Quem Ama Cuida.

Num primeiro olhar, pode parecer apenas uma decisão interna de produção. Não é.

Ela carrega um significado muito maior.

Durante décadas, a dramaturgia brasileira foi marcada por grandes autores homens que se transformaram em marcas próprias dentro da televisão. Muitos deles são gigantes incontestáveis da história do gênero. Mas a mesma indústria que consagrou nomes masculinos nem sempre ofereceu o mesmo espaço de visibilidade para as mulheres que também ajudaram a construir a ficção nacional.

É justamente nesse ponto que a escolha de Amauri ganha relevância.

Ao colocar Claudia Souto no centro de uma novela das nove, a Globo não promove apenas uma profissional talentosa. Amplia o espaço para que dramaturgas possam mostrar sua voz no principal palco da televisão brasileira, um horário capaz de alcançar milhões de espectadores diariamente e potencialmente bilhões de impactos quando se considera todo o ecossistema de distribuição da Globo, incluindo streaming, redes sociais, plataformas digitais e circulação internacional.

A decisão possui valor simbólico.

Mas sobretudo possui valor artístico.

Porque Claudia Souto não chegou a esse lugar por concessão.

Chegou por mérito.

Sua trajetória está longe de ser improvisada. Antes de alcançar o horário nobre, percorreu praticamente todas as etapas possíveis dentro da televisão. Passou por humorísticos históricos como Casseta & PlanetaOs TrapalhõesSai de Baixo e Os Caras de Pau, colaborou em novelas importantes e consolidou uma assinatura própria em trabalhos como Pega PegaCara e Coragem e Volta por Cima.

Em todas essas experiências, uma característica aparece de forma recorrente.

O ouvido.

Poucos autores contemporâneos escrevem diálogos com tanta naturalidade.

Enquanto muitos roteiristas se concentram nos grandes acontecimentos, Claudia demonstra um talento especial para aquilo que parece pequeno, mas frequentemente é decisivo: as conversas familiares, os constrangimentos cotidianos, os silêncios carregados de significado, as relações que se constroem em detalhes.

É o tipo de escrita que não busca impressionar o espectador.

Busca reconhecê-lo.

Em Quem Ama Cuida, essa qualidade aparece de forma particularmente evidente. Os dramas de Adriana, Otoniel, Elisa, Pedro e dos demais personagens não são construídos apenas a partir de grandes reviravoltas narrativas. Eles ganham força porque nascem de emoções identificáveis.

Existe observação.

Existe humanidade.

Existe verdade.

E isso não é pouco.

Num momento em que parte do entretenimento global parece cada vez mais preocupada em produzir impacto instantâneo, Claudia continua apostando numa matéria-prima antiga e sofisticada: a experiência humana.

Naturalmente, ninguém precisa diminuir Walcyr Carrasco para reconhecer a importância de Claudia Souto.

Seria um erro.

A força de Quem Ama Cuida nasce justamente da combinação de talentos complementares.

Walcyr continua sendo um dos maiores arquitetos de narrativa da televisão brasileira. Domina como poucos as engrenagens da novela popular, os grandes ganchos, as viradas dramáticas e a construção dos acontecimentos que mantêm o público emocionalmente conectado à história.

Claudia acrescenta outra camada.

Ela traz textura.

Traz intimidade.

Traz uma percepção refinada das relações humanas.

Quando esses dois universos se encontram, a novela ganha densidade.

E foi Amauri Soares quem enxergou o potencial dessa combinação.

Mais do que uma escolha de escalação, trata-se de uma decisão editorial.

Uma aposta na pluralidade criativa.

Uma demonstração de confiança em novas lideranças autorais.

E talvez seja justamente aí que reside uma das marcas mais importantes de sua gestão.

Amauri parece compreender que a televisão permanece relevante quando consegue equilibrar tradição e renovação.

Ao mesmo tempo em que protege artistas veteranos que ajudaram a construir a identidade da Globo, cria espaço para que novas vozes ocupem lugares historicamente restritos.

Ao mesmo tempo em que preserva a memória da emissora, investe no futuro de sua dramaturgia.

É uma lógica de continuidade.

Uma visão que entende que legado não se constrói apenas celebrando o passado.

Legado se constrói garantindo que os próximos capítulos também tenham qualidade.

Num ambiente cada vez mais competitivo, fragmentado e pressionado por mudanças tecnológicas, essa talvez seja uma das formas mais inteligentes de liderança.

Formar pessoas.

Reconhecer talentos.

Valorizar trajetórias.

Criar oportunidades.

E permitir que profissionais brilhantes tenham o espaço necessário para mostrar tudo o que são capazes de entregar.

Os contratos para os veteranos revelam humanidade.

A promoção de Claudia Souto revela visão.

Juntos, esses movimentos ajudam a explicar por que a trajetória de Amauri Soares ultrapassa os limites de uma carreira executiva bem-sucedida.

Ela se transforma, aos poucos, numa história sobre permanência, reconhecimento e confiança no talento brasileiro.

E isso, para a televisão, costuma ser o investimento mais valioso de todos.

O conteúdo veiculado nesta coluna é de total responsabilidade do colunista parceiro. As opiniões e informações aqui expressas não são de responsabilidade do Grupo Observatório.

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