Crítica

Sem Censura com Cissa Guimarães: a reinvenção de um clássico que devolveu relevância à TV Brasil

Há quase dois anos e meio no comando da atração, Cissa Guimarães resgata a essência histórica do programa, amplia sua repercussão digital e prova que a televisão pública ainda pode produzir conteúdo competitivo e de qualidade

Publicado em 22/07/2026

Em um cenário de televisão cada vez mais dominado por formatos acelerados, entrevistas superficiais e debates transformados em espetáculo, o Sem Censura encontrou justamente no caminho oposto a fórmula para voltar a ser relevante. Desde que Cissa Guimarães assumiu a apresentação da tradicional atração da TV Brasil, em fevereiro de 2024, o programa passou por uma transformação que vai muito além da troca de apresentadora: recuperou identidade, conquistou novos públicos e recolocou a emissora pública no centro das discussões sobre televisão de qualidade. 

A avaliação geral da crítica especializada e da repercussão do público converge para um diagnóstico raro na TV brasileira atual: trata-se de um caso de revitalização bem-sucedida de um formato histórico sem abrir mão de sua essência.

O maior mérito foi entender o que fez o Sem Censura ser um clássico

Ao longo de mais de quatro décadas, o Sem Censura construiu uma reputação baseada em conversas inteligentes, pluralidade de opiniões e entrevistas conduzidas sem a pressa característica da televisão comercial. Nas últimas fases antes da reformulação, o programa havia perdido parte dessa identidade, passando por mudanças de formato e de linha editorial que o afastaram da proposta original.

Com a chegada de Cissa Guimarães, a direção optou por um movimento inteligente: olhar para o passado sem fazer um programa nostálgico. O retorno ao formato diário, a bancada tradicional e a valorização de temas culturais, sociais, científicos e comportamentais recolocaram a atração em sintonia com sua história. Mais do que recuperar um modelo, o programa recuperou sua personalidade.

Cissa Guimarães surpreendeu como entrevistadora

Talvez o maior preconceito enfrentado por Cissa Guimarães tenha sido justamente sua trajetória. Conhecida durante décadas pelo entretenimento, pelo humor e pelo carisma construído em programas populares, havia quem duvidasse de sua capacidade de conduzir um programa essencialmente baseado em entrevistas.

Quase dois anos e meio depois, essas dúvidas praticamente desapareceram. Cissa encontrou um estilo próprio, distante tanto do jornalismo tradicional quanto da informalidade excessiva. Seu maior diferencial está na escuta.

Enquanto muitos apresentadores parecem preocupados em formular a próxima pergunta ou protagonizar a entrevista, Cissa demonstra interesse genuíno pelo entrevistado. Ela reage às respostas, desenvolve raciocínios, cria um ambiente acolhedor e faz o convidado sentir que está conversando — e não sendo interrogado.

Esse aspecto foi frequentemente destacado por analistas de televisão, que apontam justamente sua capacidade de desacelerar o ritmo da conversa em uma época dominada por cortes rápidos e respostas de poucos segundos. 

A televisão encontrou um programa… e as redes sociais encontraram inúmeros cortes

Outro fenômeno interessante é que o sucesso do Sem Censura não ficou restrito à audiência linear. O programa tornou-se uma máquina de gerar conteúdos virais.

Trechos emocionantes, declarações marcantes, debates relevantes e momentos descontraídos passaram a circular intensamente nas redes sociais, ampliando enormemente o alcance da TV Brasil entre públicos que sequer assistem à televisão aberta.

Essa talvez seja uma das maiores vitórias da atual fase. Ao contrário de muitos programas que tentam parecer “digitais”, o Sem Censura simplesmente faz boa televisão. E justamente por isso seus melhores momentos funcionam naturalmente como conteúdo para internet. Não há sensação de artificialidade. Os cortes viralizam porque existe conteúdo.

Um programa que respeita a inteligência do público

Outro aspecto que merece elogios é a diversidade dos temas. O programa consegue reunir artistas, cientistas, médicos, escritores, jornalistas, esportistas e representantes das mais diferentes áreas do conhecimento sem parecer excessivamente acadêmico ou hermético.

Essa pluralidade reforça uma característica importante da televisão pública: oferecer alternativas ao conteúdo predominantemente comercial. Naturalmente, isso não significa que todos os debates sejam igualmente profundos ou que todas as escolhas de convidados despertem o mesmo interesse.

Há episódios mais fortes que outros — algo inevitável em um programa diário de duas horas. Mas o saldo permanece bastante positivo justamente pela consistência editorial.

Nem tudo é perfeito

O sucesso do Sem Censura também evidencia alguns desafios. Por vezes, o programa poderia explorar ainda mais contrapontos entre os debatedores, aprofundando determinados temas em vez de apenas percorrer diversos assuntos em sequência.

Em alguns episódios, o excesso de convidados acaba reduzindo o tempo disponível para conversas mais aprofundadas. Também existe um equilíbrio delicado entre leveza e debate. Em determinados dias, a atração aproxima-se mais de um programa de variedades; em outros, assume um perfil quase jornalístico.

Embora essa flexibilidade seja uma virtude, encontrar uma identidade ainda mais uniforme pode fortalecer ainda mais o produto. São, porém, observações pontuais diante da qualidade geral da produção.

A melhor fase desde os tempos de Leda Nagle

Comparações com Leda Nagle são inevitáveis. Durante vinte anos, ela personificou o Sem Censura, tornando-se praticamente sinônimo da atração. Curiosamente, Cissa Guimarães não tentou imitá-la. Construiu um caminho próprio.

Essa talvez tenha sido sua decisão mais acertada. O programa preserva os valores históricos criados por Fernando Barbosa Lima, mas ganha uma apresentadora que imprime personalidade, espontaneidade e calor humano muito particulares. O resultado é uma nova fase que consegue dialogar com a tradição sem parecer presa a ela.

Veredito

O Sem Censura representa uma das experiências mais bem-sucedidas da televisão brasileira recente. Em um mercado acostumado a cancelamentos, reformulações frustradas e formatos descartáveis, a TV Brasil conseguiu revitalizar um patrimônio da comunicação nacional sem descaracterizá-lo.

Grande parte desse mérito passa pela atuação de Cissa Guimarães. Sua preparação, capacidade de escuta, empatia e naturalidade transformaram a apresentadora em peça central dessa nova fase. Mais do que recuperar audiência e repercussão digital, o programa recuperou relevância cultural. E isso talvez seja sua maior conquista.

Num momento em que a televisão frequentemente subestima seu público, o Sem Censura faz exatamente o contrário: aposta na inteligência, no diálogo e na boa conversa. É uma escolha editorial cada vez mais rara — e justamente por isso tão valiosa.