Crítica

Isabelle Drummond brilha como Naiane em Coração Acelerado e comprova maturidade artística em sua volta às novelas

Atriz transforma a influenciadora digital em uma das personagens mais interessantes da trama e confirma a evolução iniciada em grandes sucessos da carreira

Publicado em 05/07/2026

Após quase sete anos longe das novelas, Isabelle Drummond voltou ao gênero em Coração Acelerado assumindo justamente o maior desafio de sua trajetória na televisão: interpretar uma antagonista. Conhecida durante boa parte da carreira por viver protagonistas românticas, heroínas ou personagens de forte apelo popular, a atriz surpreende ao construir uma Naiane Amaral cheia de nuances, inseguranças, obsessões e humanidade.

Mais do que simplesmente interpretar uma vilã, Isabelle entrega uma personagem que evita os clichês do gênero. Naiane é ambiciosa, manipuladora e frequentemente toma decisões questionáveis, mas nunca deixa de revelar suas fragilidades. Esse equilíbrio entre controle e vulnerabilidade é justamente o principal mérito da atriz.

Desde os primeiros capítulos, a interpretação chamou atenção tanto pela naturalidade quanto pela precisão emocional. Em vez de recorrer a exageros, Isabelle optou por um trabalho contido, baseado em pequenos gestos, mudanças de olhar, pausas e alterações sutis na entonação da voz. Essa escolha faz com que as explosões emocionais da personagem tenham ainda mais impacto quando acontecem.

A própria atriz já declarou que encarou Naiane como um enorme desafio por representar sua primeira antagonista em novelas, além de destacar a complexidade emocional da personagem e seu envolvimento nas disputas centrais da trama.

Uma antagonista que desperta sentimentos contraditórios

Naiane poderia facilmente ser apenas a rival amorosa de Agrado (Isadora Cruz). Entretanto, a construção do texto das autoras e a interpretação de Isabelle transformam a personagem em alguém muito mais complexo.

Movida pela necessidade constante de aprovação, pelo desejo de controlar sua imagem pública e pela obsessão em conquistar João Raul (Filipe Bragança), Naiane alterna momentos de arrogância com episódios de evidente fragilidade emocional. É justamente nessa dualidade que Isabelle encontra seu melhor trabalho.

Mesmo quando a personagem ultrapassa limites éticos, a atriz consegue fazer o público compreender os mecanismos emocionais que alimentam suas atitudes. Isso não significa justificar seus erros, mas compreender como aquela mulher chegou até eles.

Essa camada psicológica evita que Naiane se torne uma vilã caricata, aproximando-a muito mais das antagonistas contemporâneas do que das tradicionais figuras maniqueístas das novelas brasileiras.

Quando a atuação supera alguns problemas do roteiro

Nem tudo, entretanto, depende exclusivamente da interpretação.

Em alguns momentos, Coração Acelerado parece oscilar entre aprofundar os conflitos internos de Naiane e transformá-la apenas em instrumento da narrativa principal. Em determinadas fases da novela, algumas motivações acabam sendo aceleradas ou pouco exploradas.

Parte da crítica especializada apontou justamente que a personagem possuía potencial para receber um desenvolvimento ainda mais consistente dentro da história. Ainda assim, Isabelle consegue preencher essas lacunas com sua atuação.

Mesmo quando o roteiro não oferece grandes cenas dramáticas, ela mantém coerência na construção da personagem, preservando sua personalidade e sua evolução psicológica. É um tipo de atuação que funciona justamente nos detalhes.

Comparativo mostra clara evolução na carreira

O crescimento artístico de Isabelle Drummond fica ainda mais evidente quando se observa sua trajetória.

Quem conheceu a atriz ainda criança como Emília, no Sítio do Picapau Amarelo, já percebia enorme desenvoltura diante das câmeras. Depois vieram personagens extremamente populares como Bianca, em Caras & Bocas, Cida, em Cheias de Charme, Megan, em Geração Brasil, Júlia, em Sete Vidas, Anna Millman, em Novo Mundo, e Manuzita, em Verão 90.

Em praticamente todos esses trabalhos, Isabelle explorou protagonistas sensíveis, românticas ou de forte identificação com o público. Naiane representa justamente a ruptura desse padrão.

A atriz demonstra hoje um domínio técnico muito superior ao visto em suas primeiras protagonistas. Existe maior segurança na composição corporal, mais precisão na construção das emoções e um controle admirável do tempo dramático.

A maturidade adquirida durante os anos em que esteve afastada das novelas parece ter ampliado seu repertório interpretativo.

Uma química que fortalece a narrativa

Outro ponto positivo é a interação de Isabelle com o restante do elenco. As cenas ao lado de Filipe Bragança possuem tensão constante, justamente porque Naiane nunca demonstra exatamente quais são suas verdadeiras intenções.

Já os confrontos com Isadora Cruz ajudam a estabelecer uma rivalidade convincente, sem que nenhuma das duas atrizes tente “roubar” a cena da outra. A química entre o trio sustenta boa parte dos conflitos centrais da novela.

Além disso, Isabelle também demonstra facilidade para dividir espaço com participações especiais, como ocorreu nas cenas com Ana Castela, elogiadas pela própria atriz durante entrevistas de divulgação da novela.

O melhor momento da carreira?

Talvez ainda seja cedo para afirmar categoricamente que Naiane seja a melhor personagem da carreira de Isabelle Drummond. Entretanto, dificilmente há dúvidas de que este seja um de seus trabalhos mais maduros.

Ao abandonar completamente a zona de conforto, a atriz demonstra que possui recursos para interpretar personagens muito mais complexos do que aqueles que marcaram sua imagem durante tantos anos.

Naiane exige manipulação, fragilidade, insegurança, sedução, obsessão, arrogância e sofrimento — sentimentos muitas vezes apresentados dentro de uma mesma sequência.

Isabelle responde a esse desafio com uma atuação segura, sofisticada e tecnicamente consistente.

Veredito

O retorno de Isabelle Drummond às novelas não poderia ter sido mais acertado.

Naiane confirma a evolução de uma atriz que cresceu diante do público e que hoje demonstra maturidade suficiente para enfrentar personagens moralmente ambíguos, emocionalmente densos e dramaticamente exigentes.

Se o roteiro por vezes deixa escapar oportunidades de aprofundar ainda mais a personagem, Isabelle compensa essas limitações com uma interpretação precisa, elegante e repleta de pequenas camadas emocionais.

Mais do que uma boa vilã, Naiane representa um novo momento na carreira da atriz — e talvez o início de sua fase mais interessante como intérprete.