Inconsistente, O Sétimo Guardião pode não deixar saudades

Publicado em 18/02/2019

Prestes a chegar em seu centésimo capítulo, O Sétimo Guardião ainda não mostrou a que veio. O folhetim que demorou a ser liberado para produção e esteve no centro de diversas polêmicas antes de sua estreia, foi anunciado como um oásis no meio do deserto criativo que se encontrava o horário das 21h. Depois da fraca Segundo Sol, e da criticada O Outro Lado do Paraíso, a trama prometia ser a salvação do gênero. Ficou só na promessa!

Não falarei aqui em números de audiência, embora eles sejam reflexo direto da insatisfação popular. Considero Aguinaldo Silva, autor da novela, um gênio. Todavia assim como as últimas tramas assinadas por Manoel Carlos (outro gênio), O Sétimo Guardião está deslocada no tempo. Não combina com 2019.

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Sua premissa é limitada, e com um pouco mais de atenção, Sílvio de Abreu, diretor de teledramaturgia da Globo (o cara responsável por aprovar os projetos), perceberia que seu enredo se esgotaria facilmente.

Serro Azul

A grande sacada inicialmente era localizar a trama no universo ficcional de Aguinaldo. Serro Azul, a cidade sempre citada mas nunca visitada se fez palco da ação. Com um porém. O telespectador mais atento que também assistiu à outras novelas do autor, certamente notou a discrepância entre as características mostradas na tela. Tanto em Greenville, como em Tubiacanga, Porto dos Milagres ou Santana do Agreste (que provavelmente está bem distante por ser localizada na divisa da Bahia com Sergipe), Serro Azul era alardeada como a cidade mais desenvolvida do entorno.

Portanto não faz sentido, que na novela atual ela seja a cidade mais atrasada. E que não tem sequer um rastro de modernidade. Não tenha uma antena retransmissora de TV, ou uma antena de telefonia celular. O clima de cidadezinha, com um quê pitoresco das tramas de realismo fantástico do passado, acontece melhor em Cordel Encantado, no ar no Vale a Pena Ver de Novo, que na novela das 21h. O Sétimo Guardião poderia ser passar em qualquer região metropolitana não-ficcional.

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O enredo

A história da fonte milagrosa cabe perfeitamente ao que fora proposto como realismo mágico. Discutir as mazelas do ser humano atual através de elementos fantásticos sempre soou atrativo, principalmente em tempos de efeitos especiais aprimorados. Mas faltou explicar melhor essa fonte. Além de ter poderes curativos, e rejuvenescedores, pouco foi dito sobre seu poder principal: salvar a humanidade e fornecer água para todo o universo caso a água potável se esgote.

Isso nos deixa a entender que a tal fonte subterrânea produz água infinita. Será? E para isso foram convocadas sete pessoas aleatórias que abdicaram de partes de suas vidas para salvar o mundo, como uma espécie de Power Rangers místicos. Tudo poderia ser bem diferente se os sete (que deveriam ser os protagonistas) tivessem suas respectivas histórias contadas. E o autor promovesse um rodízio entre eles, tal qual Gloria Perez em A Força do Querer.

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Entretanto, o que vimos foi o protagonismo ser empurrado para Gabriel (Bruno Gagliasso). O jovem foi atraído de forma sobrenatural para uma cidade no meio do nada para assumir o posto de sétimo guardião, o mais importante dentro da irmandade, e que exerce função de liderança. Mas desde sua chegada, até que ele assumisse sua função, passaram-se 70 capítulos, tempo suficiente para que os telespectadores deixassem de se importar com o rumo das personagens.

Enrolação

E essa demora se deve a um fator simples: a história não tem força, mas ela precisa seguir por cerca de 150 capítulos. Só assim fará valer o investimento inicial de produção, afinal O Sétimo Guardião, teve a maior cidade cenográfica construída na história da Globo. Mas como fazer com que uma história que poderia ser contada em 20 capítulos chegue a mais de 100?

Os acontecimentos são diluídos em pequenas cenas que nada dizem e se arrastam por diversos capítulos (Nunca um acontecimento começa e termina na mesma cena, às vezes nem no mesmo capítulo).  Aí entram sob holofotes, os núcleos coadjuvantes, que também utilizam esse mesmo formato de construção de texto.

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Percebam: Demorou para que Valentina tirasse o vestido vermelho, demorou para que Marcos Paulo (Nany People) chegasse, demorou também Gabriel se descobrir guardião. Demorou para que Afrodite (Carolina Dieckmann) percebesse que o marido tem desvio de caráter, e está demorando para acontecer o grande almoço de família que Stella (Vanessa Giácomo) disse que marcaria num capítulo de dezembro, e até hoje nada.  

Núcleos vazios em O Sétimo Guardião

Alguns dos núcleos inclusive são risíveis, e nada justifica sua existência. Clotilde (Adriana Lessa) e Tobias (Roberto Berindelli) por exemplo, são apenas escada para outros personagens. Assim como os filhos de Afrodite. Rita de Cássia (Flávia Alessandra) e Machado (Milhem Cortaz) também já tiveram sua história esvaziada – já que não alterou nada, nem sequer levantou uma discussão o fato de um homem heterossexual usar calcinhas. E o que dizer de Guilherme (Caio Manhente) e João Inácio (Paulo Vilhena)?

Este último se envolveu rapidamente com Stefânia (Carol Duarte), prostituta gaga, que curou sua gagueira na segunda semana de novela, e perdeu sua história. E o caso mais curioso de O Sétimo Guardião é o da vilã Valentina (Lilia Cabral). Ela não antagoniza com ninguém, ao mesmo tempo que passeia por todos os núcleos. A tentativa de fazer uma vilã como Altiva (A Indomada) ou Perpétua (Tieta), ficou só no papel.

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Valentina dispara frases de efeito em quase todas as cenas sem soar ameaçadora, divertida, ou mesmo convincente. Ela é só chata. Uma grande empresária como ela, jamais passaria meses numa cidadezinha dando golpes para possivelmente, quem sabe, reerguer sua empresa.

Em 100 capítulos, ela já poderia ter usado a água para produzir um cosmético rejuvenescedor, chamado a atenção de órgãos reguladores, e até autoridades internacionais, que mexeriam muito mais com a história.

Protagonista

Chata também é Luz (Marina Ruy Barbosa), a protagonista sem propósito, que tem poderes premonitórios que nunca conseguiu usar. Ela poderia ser o contraponto de Valentina, não foi. Ela poderia ser o motivo que deixa o mocinho em dúvida entre o amor e a missão, não foi. Ela poderia ser importante para a história, não foi.

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Tudo parece insosso ou requentado na novela. Até mesmo as mudanças que vão ocorrer na cidadezinha com a chegada da televisão e da internet. Fica a impressão de que tudo trata-se de uma homenagem aos 30 anos da exibição Tieta. Na trama de 1989, a personagem-título voltava para sua cidade natal 20 anos após ser expulsa de lá. Rica e bem sucedida, ela tinha como objetivo levar luz elétrica ao local para implodir a discórdia entre os moradores e vingar-se deles. Mas nem tudo está perdido na novela.

Boas sacadas como os personagens Marcos Paulo (embora não provoque a discussão sobre gênero numa cidade atrasada), Marilda (Letícia Spiller), Mirtes (Elizabeth Savalla),  Judith (Isabela Garcia) e claro, o gato León ainda cativam o público, e merecem mais destaque no enredo. No mais, é uma grande enrolação bem produzida e vendida como grandiosa. A direção da trama mesmo sendo boa, é equivocada, mas este é um assunto para outro texto.

Final Feliz

Faltando menos de três meses para o final, é possível ainda que a trama evolua? Sim. Para isso, os roteiristas precisariam deixar de lado em tempo hábil alguns enredos. Sobretudo aqueles que não se ligam à história principal.  Mas há uma grande diferença entre finalizar bem uma história que começou mal, e transforma-la em sucesso. Do contrário O Sétimo Guardião poderá sair de cena como uma boa ideia, que nunca poderia ter sido executada.

Discrepâncias

Não faz sentido 1: Olavo (Tony Ramos) negligenciar sua empresa multimilionária em São Paulo para morar de favor numa cidade interiorana, na casa de sua inimiga, para investir num negócio com altas chances de dar errado.

Não faz sentido 2: Murilo (Eduardo Moscóvis) foi punido por ter se envolvido com uma mulher há 20 anos. Virou gato, e Egídio (Antonio Calloni) foi quem lhe batizou como León. Para ele voltar a ser gato precisariam ter morrido três sétimos guardiães após a maldição. Porém pela lógica, apenas Egídio morreu.

Não faz sentido 3: Por que diferente de Eurico, Murilo não foi consultado sobre a maldição? Segundo o rapaz, ele já acordou como gato após noite de amor com Neide (Viviane Araújo). 

Não faz sentido 4: Eurico (Dan Stulbach) foi amaldiçoado a não mais sentir prazer com mulheres. Se era tão fácil curá-lo com água da fonte, como acontecerá nos próximos capítulos, nenhum guardião precisa ter medo das maldições, porque elas são furadas, já que a partir do momento que se deixa de ser guardião, a água passa a ter efeito sobre a pessoa.

Obs: Aguinaldo perdeu grande oportunidade de trazer Cora (Marjorie Estiano), de Império de volta. Imagine como seria legal se ela aparecesse para contar que descobriu a fonte antes de todos?

*As informações e opiniões expressas nessa crítica são de total responsabilidade de seu autor e podem ou não refletir a opinião deste veículo.

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