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Tatá Werneck e a coragem de começar de novo quando já não precisa provar nada

Consagrada como atriz, humorista e apresentadora, Tatá escolhe o território mais arriscado da televisão para abrir uma nova frente na carreira: a autoria de novelas. E talvez tudo o que aprendeu fazendo o público rir, escutando pessoas e cultivando relações com generosidade seja justamente o que mais importa agora

Publicado em 27/07/2026

Existe uma espécie de coragem particular em começar de novo quando já se chegou longe. Para quem ainda procura um lugar, arriscar faz parte do percurso. Mais intrigante é observar quem conquistou reconhecimento, encontrou uma linguagem própria e, ainda assim, decide voltar à posição desconfortável de estreante. É desse lugar que Tatá Werneck se aproxima da autoria de novelas. Não como alguém que abandona uma carreira para tentar outra, mas como uma artista que parece ter descoberto que tudo o que fez até aqui talvez estivesse também lhe ensinando a escrever.

Tatá sempre trabalhou com palavras. Parece uma constatação óbvia, mas não é. Há uma diferença enorme entre dizer um texto e compreender o que uma frase provoca no outro. No Lady Night, boa parte da graça nasce menos da pergunta do que da capacidade de perceber a resposta, encontrar uma fresta e devolver alguma coisa que ninguém poderia prever. Em E.T.: Edu e Tatá, essa inteligência também estava presente. Improvisar bem não significa simplesmente falar depressa. Significa escutar depressa. E poucas habilidades são tão valiosas para quem pretende escrever personagens.

Mas talvez exista outra forma de escuta que ajude a compreender essa nova etapa. Fora das telas, Tatá é reconhecida publicamente também pela generosidade com que trata seus afetos. É uma mulher que faz questão dos amigos, celebra quem está ao redor, demonstra carinho e transforma vínculos em família. Há nela essa qualidade bonita de quem parece compreender que o sucesso do outro não ameaça o próprio. Amiga, mãe, companheira, quase irmã daqueles que escolheu para caminhar por perto, Tatá carrega para além das câmeras uma dimensão afetiva que ajuda a explicar sua capacidade de observar gente. E escrever, antes de inventar grandes acontecimentos, é aprender a olhar para pessoas.

Uma novela, evidentemente, exige muito mais. O improviso dura segundos; um folhetim precisa sobreviver a capítulos, núcleos, conflitos, romances, viradas e personagens que não podem acordar diferentes apenas porque o roteiro necessita que façam determinada coisa. É uma construção de longa distância. Talvez por isso a presença de Cláudio Lisboa e Marcio Wilson seja tão importante nessa estreia. Experiência, nesse caso, não precisa funcionar como freio para uma voz nova. Pode funcionar como estrutura. O desafio será organizar a espontaneidade sem domesticá-la.

Se o projeto realmente encontrar espaço na faixa das 23h, Tatá poderá ainda ganhar algo precioso para uma primeira obra: liberdade. Não liberdade para fazer qualquer coisa, mas para descobrir que tipo de autora deseja ser. Sua personalidade artística nunca combinou muito com ambientes excessivamente comportados. Há nela uma disposição para desmontar solenidades, deslocar conversas e revelar o absurdo escondido em situações absolutamente normais. Uma novela adulta pode permitir que essa característica apareça sem a obrigação de transformar a história inteira numa comédia.

Porque seria um erro esperar apenas uma novela engraçada de Tatá Werneck.

Talvez a parte mais interessante dessa estreia esteja justamente no que a atriz vem aprendendo quando não precisa fazer rir. Seu trabalho em Quem Ama Cuida mostra uma intérprete interessada em outras temperaturas. Humor e emoção não precisam disputar espaço dentro de uma personagem. Pessoas engraçadas sofrem. Pessoas tristes podem ser ridículas. Gente generosa também tem contradições. A dramaturgia começa a ficar interessante quando abandona a obrigação de explicar uma pessoa por uma única característica.

E talvez a maternidade tenha acrescentado outra camada a esse olhar. Ser mãe não substitui a artista nem precisa ser usado como explicação para sua obra, mas amplia inevitavelmente a experiência humana de quem vive esse papel. Amor, medo, proteção, responsabilidade, culpa, alegria e a descoberta cotidiana de que alguém pode importar mais do que nós mesmos são matérias antigas da dramaturgia. Tatá conhece agora essas emoções não apenas como intérprete. Conhece parte delas pela vida.

Tatá conhece pessoas também pelo próprio ofício. Passou anos entrevistando gente suficiente para perceber que ninguém responde exatamente como imaginamos. Essa observação da natureza humana pode ser mais importante para uma autora do que qualquer domínio sobre memes ou redes sociais. Claro que ela compreende como poucos artistas de sua geração a televisão que continua existindo depois que o programa termina. Sabe que uma frase atravessa a tela, vira vídeo, comentário, discussão, recorte. Mas repercussão é consequência. Antes dela precisa existir uma cena que mereça continuar vivendo.

E talvez esteja aí sua vantagem menos evidente. Tatá conhece o público sem parecer ter passado a carreira tentando decifrá-lo em uma planilha. Aprendeu diante dele. Descobriu quando uma pausa funciona, quando uma frase passou do ponto, quando insistir melhora uma situação e quando o silêncio pode ser mais engraçado do que a resposta preparada. É uma formação empírica, adquirida no lugar mais implacável possível: diante das pessoas.

Essa mesma capacidade de perceber o outro talvez explique por que a generosidade merece entrar nessa história. Não como elogio decorativo, mas como parte de uma personalidade artística. Para escrever personagens é preciso, em alguma medida, conceder humanidade até àqueles de quem discordamos. É preciso compreender sem necessariamente absolver. Dar espaço. Escutar. Imaginar a dor alheia. A mulher que faz questão dos amigos, que se entrega à maternidade e que preserva relações num ambiente profissional tão competitivo talvez leve para a escrita justamente esse interesse pelo outro.

Nada disso garante uma boa novela. Ainda bem.

Se houvesse uma fórmula capaz de transformar talento anterior em grande dramaturgia, televisão seria uma indústria muito menos fascinante. A primeira novela de Tatá poderá funcionar ou não. Poderá encontrar rapidamente sua voz ou precisar procurá-la durante o caminho. Essa incerteza é parte da beleza da estreia. Pela primeira vez, uma artista acostumada a controlar o instante terá de controlar o tempo.

E novela é, acima de tudo, tempo.

Tempo para apresentar alguém. Tempo para fazer o público gostar dessa pessoa. Tempo para decepcioná-lo com ela. Tempo para permitir que mude. Tempo para fazê-la partir e provocar saudade.

Talvez Tatá saiba um pouco sobre isso também fora da televisão. Amizades são construídas no tempo. Maternidade é tempo oferecido a alguém. Generosidade é, muitas vezes, aquilo que fazemos quando não existe câmera, aplauso ou crédito final esperando por nós.

Tatá Werneck passou boa parte da carreira dominando segundos.

Agora quer descobrir o que consegue fazer com meses.

Talvez seja justamente por isso que sua estreia como autora desperte tanta curiosidade. Não porque uma estrela da Globo resolveu escrever uma novela, mas porque uma artista cuja vida profissional sempre dependeu de entender pessoas decidiu finalmente inventá-las. E, se alguma coisa da mulher generosa, da amiga, da mãe e da quase irmã de tantos afetos conseguir atravessar a página, talvez o público descubra que por trás da velocidade extraordinária de Tatá sempre existiu outra qualidade igualmente importante para uma autora: a capacidade de olhar para o outro.

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