Durante muito tempo, os lugares de maior poder na dramaturgia brasileira foram ocupados majoritariamente por homens. Por isso, há algo especialmente significativo em ver Claudia Souto dividindo com Walcyr Carrasco a autoria de Quem Ama Cuida. Não apenas porque uma mulher chegou a esse lugar, mas porque seu olhar interfere no que vemos na tela. Há um tato feminino na observação dos afetos, das dores, das violências silenciosas e das contradições das personagens. Em um país em que as mulheres são maioria da população, ter uma mulher ajudando a decidir como essas histórias serão contadas não é detalhe. É parte da própria conversa que a televisão estabelece com o Brasil.
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Claudia conhece como poucos a engenharia da televisão popular. Pega Pega, Cara e Coragem e Volta por Cima ajudaram a consolidar uma autora que sabe falar com o chamado povão sem jamais tratá-lo como uma abstração. Ela entende o humor, a emoção, o gancho e aquela frase que atravessa a tela e reaparece na conversa do dia seguinte. Mas sua qualidade talvez esteja justamente em recusar uma velha condescendência: a ideia de que, para ser popular, é preciso ser simplório. Claudia sabe que o povão também gosta do refinado. E escreve para ele com respeito.
Essa inteligência aparece ainda mais quando o assunto são mulheres complexas. Uma personagem como Brigitte (Tatá Werneck), por exemplo, poderia facilmente ficar aprisionada ao rótulo da mulher obsessiva. O olhar da dramaturgia procura seus vazios, rejeições e feridas sem necessariamente absolvê-la de seus atos. É uma diferença enorme. Humanizar não significa justificar. Significa compreender que ninguém é formado por uma única característica. Essa atenção à psicologia feminina acrescenta textura ao melodrama e permite que as personagens errem, machuquem, amem, fracassem e recomecem sem perder a humanidade.
Claudia Souto tem uma mente inquieta. Seu texto procura subtexto onde seria mais fácil entregar explicação, contradição onde caberia um estereótipo e delicadeza onde outros escolheriam apenas o grito. Ao lado da potência popular de Walcyr Carrasco, ela ajuda Quem Ama Cuida a encontrar um equilíbrio precioso entre alcance e elaboração. E como é bom ver uma mulher ocupando um espaço durante tanto tempo dominado por homens sem precisar reproduzir o olhar que encontrou ali. Claudia chegou com o seu. Feminino, popular, sofisticado e atento. Ela não escreve para milhões diminuindo o texto para alcançar milhões. Ela eleva a conversa porque sabe que o público é perfeitamente capaz de acompanhá-la.
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