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Crônica de domingo: Mariana Ximenes, a elegância de quem transforma presença em permanência

Em um tempo de personagens descartáveis e sucessos passageiros, a atriz reafirma o valor da constância. Em Quem Ama Cuida, Mariana Ximenes faz de Dora um retrato de maturidade, sensibilidade e força silenciosa, provando que o verdadeiro protagonismo também nasce da delicadeza

Publicado em 19/07/2026

Há artistas que entram em cena para cumprir uma função dramática. Mariana Ximenes pertence a outra categoria: a das atrizes que alteram a temperatura de uma obra. Sua presença não se limita ao enquadramento, ao texto bem dito ou ao gesto preciso. Ela cria atmosfera. Em Quem Ama Cuida, isso se percebe antes mesmo de Dora ganhar o centro da ação. Mariana chega trazendo consigo uma memória afetiva construída ao longo de mais de 25 anos de televisão e, ao mesmo tempo, a disposição de quem ainda trata cada personagem como uma estreia.

Vocacionada, disciplinada e estudiosa, ela nunca parece confiar apenas no talento que evidentemente possui. Há trabalho em cada pausa, em cada mudança de tom, na maneira como Dora atravessa a leveza, a frustração e o desejo sem perder a coerência. Mariana não interpreta para exibir recursos. Interpreta para servir à personagem. Talvez por isso o público reconheça tão rapidamente a verdade que existe nela, mesmo quando a trama ainda está apresentando suas primeiras camadas.

Dora, cujo nome de registro é Eudora, poderia ser apenas a dondoca elegante casada com o advogado Ademir. Nas mãos de Mariana, porém, ganhou inquietação, delicadeza e uma vontade de viver que ultrapassa o figurino impecável. Ao abrir uma escola de dança e buscar independência, a personagem começa a se mover para além das expectativas impostas a ela. O público não torce apenas por seu romance com André. Torce para que Dora se encontre, se liberte e descubra que a felicidade não precisa ser concedida por ninguém.

Esse vínculo é mérito de uma atriz que conhece profundamente o mecanismo da identificação popular. Mariana consegue tornar Dora próxima sem retirar dela o brilho. Faz com que a personagem seja sofisticada, mas nunca distante; frágil, sem parecer passiva; romântica, sem abrir mão da inteligência. Quando a torcida cresce, não é apenas pela história escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto. É pela humanidade que ela acrescenta a cada cena.

Existe ainda uma qualidade menos visível, mas decisiva em qualquer produção: Mariana é agregadora. Há atores que protegem o próprio espaço. Ela parece ampliar o espaço de todos. Une o elenco, favorece a troca e compreende que uma novela não se constrói com desempenhos isolados, mas com escuta. Essa generosidade aparece na tela. Suas cenas têm circulação, ritmo e parceria porque ela não disputa a atenção com os colegas. Trabalha para que o conjunto cresça.

A escolha de Mariana para interpretar Eudora também revela algo sobre sua força para além da dramaturgia. A personagem nasce vinculada a uma ação comercial integrada à narrativa, uma aproximação rara entre marca e ficção. Não se trata de uma decisão aleatória. Mariana reúne credibilidade, identificação e capacidade de comunicação. Tem aquilo que o mercado costuma chamar de rentabilidade, mas que, no caso dela, vem sustentado por algo mais importante: confiança.

O público já amava Mariana por Ana Francisca, por suas vilãs, por suas mocinhas e por todas as mulheres contraditórias que ela soube defender sem julgamento. Dora chega amparada por essa obra, mas não vive apenas dela. A personagem já encontrou seu próprio lugar porque Mariana não se acomoda na lembrança do que fez. Ela continua presente, curiosa e entregue ao ofício.

Em Quem Ama Cuida, Dora ainda procura a felicidade. Mariana Ximenes, porém, já realizou algo mais difícil: fez o público acreditar que essa felicidade lhe pertence. E quando uma atriz consegue transformar a esperança de uma personagem em desejo coletivo, não há espaço pequeno, papel secundário ou ação comercial que limite sua importância. Há apenas o reconhecimento de uma artista que sabe permanecer sem jamais parecer repetida.

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