O anúncio da realização da Copa América no Brasil, a duas semanas do início da competição, provocou sucessivas críticas de jornalistas, políticos e cidadãos indignados com as péssimas condições do país para sediar um evento esportivo na pior fase da pandemia de coronavírus. De forma mesquinha, os favoráveis à decisão do presidente Jair Bolsonaro de socorrer a Conmebol reduziram a gravidade da situação a uma briga entre Globo e SBT.
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Entre os principais programas esportivos da TV, houve o consenso de que sediar a Copa América no Brasil é inviável do ponto de vista sanitário, motivo pelo qual a Argentina vetou a realização do torneio no país. A outra sede, Colômbia, voltou atrás em função de protestos políticos. Na Band, Denílson chamou o anúncio de “vergonha” durante o Jogo Aberto. Felipe Andreoli reagiu à escolha da Conmebol com ironia na abertura do Globo Esporte: “Como se tivesse tudo uma maravilha”.
O comentário mais incisivo veio de Luis Roberto durante o Seleção SporTV. Com muita firmeza, lembrou que o governo federal gastou minutos para oferecer o país à Conmebol mas demorou meses para responder o laboratório Pfizer para a compra de vacinas contra o coronavírus.
“Vem a notícia depois da desistência de vários países irmãos, que não têm condições, por causa da pandemia, de realizar a Copa América, e no país que tem a pandemia descontrolada, que levou nove meses para responder a carta da Pfizer e respondeu em dez minutos que ‘vamos fazer a Copa América’. Não é possível, é inaceitável, a sociedade brasileira, a coletividade do futebol e do esporte, nós não podemos aceitar essa decisão, sinceramente. Que se realize, que faça o que eles bem entenderem, que os negacionistas façam caravanas agora à Brasília para ter público na grande final, momento apoteótico dessa porcaria dessa competição! É uma vergonha, um acinte, um tapa na cara dos brasileiros!”, desabafou.
O teor das críticas é claro: se nossos vizinhos não quiseram sediar a Copa América por causa da pandemia, não é possível o Brasil, segundo país com mais mortes por Covid-19 no mundo, aceitar receber os jogos. Entretanto, somente os profissionais da Globo foram rebatidos nas redes sociais com um único berro: “hipocrisia”.
Para os críticos da Globo, a emissora não reclama das Eliminatórias da Copa e das competições nacionais que são transmitidas pela emissora, mas fala mal da Copa América só porque foi comprada pelo SBT. Entrou por um ouvido deles e saiu pelo outro o simples fato de que o país mais letal da pandemia no continente aceitou sediar um evento esportivo após outras nações desistirem para proteger seu povo do vírus que o torneio inevitavelmente ajudará a propagar (até porque a final tem previsão de público no estádio).
Comparar a Copa América, que demanda dezenas de viagens e jogos em um curto período, às Eliminatórias, que já estavam paralisadas em função da pandemia e têm intervalo maior entre partidas, é, no mínimo, canalhice. Além disso, é muito fácil encontrar opiniões de profissionais da Globo contra os protocolos da CBF e das federações para o Campeonato Brasileiro e competições estaduais, mesmo eles sendo detentores exclusivos da exibição na TV.
Reduzir as críticas da imprensa contra a vinda da Copa América para o Brasil (pelos motivos já citados nesta análise) a uma mera briga por direitos de transmissão é um argumento rasteiro e condizente com o atual momento político no país, em que o presidente e seus aliados transformam a compra do torneio pelo SBT em uma “derrota” da Globo. Na “guerra” de narrativas, o que menos importa é a vida.
