Aplausos

Motivos do recorde de audiência da entrevista de Felipe Neto à Cissa Guimarães

Volta às origens e sinergia digital consolidam retorno do Sem Censura  

Publicado em 22/09/2024

Não é apenas a audiência que vem batendo recordes e voltando aos patamares de seu período de auge. Criado em 1985, por Fernando Barbosa Lima junto com o processo de redemocratização do Brasil, o Sem Censura está também recuperando o prestígio de outrora. Sua bancada de entrevistados reúne algumas das personalidades mais renomadas e interessantes em seus respectivos segmentos.

O programa das tardes brasileiras quebrou seu próprio recorde de telespectadores referente a última década somente com os resultados da tradicional TV Aberta, com destaque para a praça do Rio de Janeiro de onde é transmitido nacionalmente.

Filipe Neto: influente também na velha TV

O convidado responsável por esse pico de pessoas ligadas foi o influenciador digital Felipe Neto. Houve um congestionamento com 5.468 mensagens enviadas para o entrevistado, que falou sobre a regulamentação da internet e divulgou seu livro “Como enfrentar o ódio – A Internet e a luta pela Democracia”.

Sendo um dos maiores youtubers do mundo, com 46 milhões de inscritos, Felipe acabou dando um empurrão na trajetória ascendente do programa em geral, inclusive no canal do Sem Censura no YouTube, que registrou um aumento de 50% nas visualizações. O resultado geral da atração ainda soma o público alcançado pela retransmissão através da rede de emissoras públicas e o obtido com a reprise da meia-noite. Na conta final ainda entram os benefícios digitais, como os recortes para mídias sociais e as transmissões por streaming.

Spin-Off Musical do Sem Censura

Um dos destaques dessa nova fase são os especiais musicais temáticos ou abordando obras de grandes artistas. O último musical foi dedicado a um dos maiores expoentes de nossa cultura, Lia de Itamaracá. Episódios antológicos também foram produzidos para Tim Maia, Luiz Gonzaga, o grupo MPB4, as Rainhas da Rádio Nacional, além de um temático sobre Silvio Santos.

Essa versão ganha vida, dinâmica e periodicidade próprios, nas sextas-feiras, único dia em que o programa é gravado. Assim faz com que esses episódios não possam se beneficiar de uma das mais marcantes características do Sem Censura, que é a interatividade presente desde o seu início. Ainda antes da difusão do fax, as perguntas e comentários chegavam por telefones instalados no estúdio e atendidos por produtores que anotavam e repassavam parta a apresentadora.

Outro grande desafio é preencher duas horas de tela com uma única temática. Mesmo trazendo o homenageado quando em vida e a participação de seus convidados, manter o ritmo por todo esse tempo é complicado. Fora que, por mais rica que seja a cultura brasileira, com o passar do tempo, os grandes nomes tendem a se esgotar, enfraquecendo a proposta.

Uma solução para preencher esses quase 120 minutos semanais é intercalar entre as entrevistas e a músicas ao vivo, a inserção do vasto acervo musical da extinta TVE, que foi incorporado pela EBC. Quem trabalha com acervo sabe que a melhor forma de garantir sua preservação assim como motivar restaurações, é o uso constante desse material.

Cissa Guimarães

Não resta dúvida da influência da nova apresentadora nesse processo de resgate e ressignificação do Sem Censura, que é um patrimônio da TV brasileira. Entre as dez apresentadoras que já comandaram a atração, Cissa Guimarães é a única que não é jornalista. Embora isso não seja crucial, já que Jô Soares também não era, é visível o esforço e dedicação de Cissa para desempenhar essa função.

A cada edição, ela prova que faz seu dever de casa, chegando ao estúdio dominando os temas tratados e as biografias dos convidados. No entanto, sua maior contribuição foi trazer ainda mais leveza, através da combinação de alegria, simpatia e humanidade.

Por outro lado, sua formação como atriz e o fato de ser amiga ou ex-colega de muitos convidados, em algumas situações prejudica o distanciamento salutar entre as partes, podendo ficar a abordagem mais superficial. Caso apareçam, não se pode-se subtrair narrativas sensíveis aos entrevistados se elas estiverem dentro do contexto. Existem formas respeitosas de apontar contestações e divergências, pois sem elas perde-se a essência de debate, um dos motes do Sem Censura.

Essa lacuna poderia ser preenchida pelo debatedor presente em cada edição. No entanto, a atual composição, formada basicamente por atores e influenciadores, não consegue dar um maior suporte à apresentadora. E não seria necessária o afastamento desses componentes. Bastava acrescentar entorno da bancada mais uma cadeira, cativa para um rodízio de jornalistas. Pela sua formação, tendem, a possuir técnicas mais apropriadas para introdução de perguntas pertinentes, necessárias e contextualizadas.

Transformações durante a Linha do Tempo

O Sem Censura é um dos mais significativos e longevos programas de entrevistas da TV brasileira. Trata-se de um dos legados da saudosa TVE do Rio de Janeiro, extinguida para abrigar a TV Brasil. Num período mais exitoso, sua duração foi sendo estendida até alcançar três horas e meia de duração com a condução heroica de Lúcia Leme.

A estratégia era aproveitar seu campeão para ocupar o maior espaço possível da grade de programação, numa estratégia para garantir um tempo maior do dia com bons índices de audiência. Essa nova versão trouxe de volta o formato, a duração e o horário tradicionais, de segunda a sexta, das 16h às 18h. Havia sido reduzido a uma hora semanal, à noite. Como contraponto, quase foi extinto na gestão passada. Foi reduzido a uma hora semanal noturna, transmitido de Brasília com apenas um “entrevistado” por vez, numa espécie de rodízio entre o alto escalão do governo.

Quase extinto, programa é resgatado

Retornou em 26 de fevereiro deste ano sob o comando de Cissa Guimarães. Através de um esforço conjunto da emissora e com apoio da população rapidamente resgatou sua posição de destaque entre as demais atrações televisivas. Essa reconquista é fruto de uma combinação pelo primor pela qualidade, garantida da diversidade e relevância dos convidados. Isso sem falar no carisma e experiência da ex-atriz e apresentadora da Globo sustentada pelo empenho da produção e do supervisor de conteúdo, Muka.

Bruno Barros, atual diretor geral, é cria da casa, tendo passado por diversas funções, incluindo a de debatedor na antepenúltima versão do Sem Censura. Ele traz conhecimento de causa, além de habilidade em transitar e interagir com os setores da EBC e da TV Brasil, muitas vezes emperrados pela burocracia pública.

Além das já citadas, ao longo de seus 39 anos, o Sem Censura também foi apresentado pelas jornalistas Tetê Muniz, Gilse Campos, Eliana Monteiro, Márcia Peltier, Liliana Rodrigues, Beth Camarão, Leda Nagle e Vera Barroso.