Vem, meu amor

A volta de Tieta pode ajudar na reprise de outros grandes clássicos mais antigos na TV aberta?

Novela tem 35 anos e um tom diferente do que vemos no gênero hoje em dia

Publicado em 22/11/2024

Desde a semana passada, os noveleiros e a própria imprensa especializada se veem em polvorosa com a notícia da volta da novela Tieta no Vale a Pena Ver de Novo a partir de 2 de dezembro, em substituição a Alma Gêmea (2005-2006).

Se não o maior, um dos motivos para essa animação é o fato de que Tieta não apenas é um dos grandes clássicos da nossa teledramaturgia, como também recentemente completou 35 anos de sua estreia recentemente – foi exibida de agosto de 1989 a março de 1990. O que a torna a novela que voltou ao ar na TV Globo mais tempo depois de sua primeira transmissão, desconsideradas reprises anteriores.

O mesmo Vale a Pena Ver de Novo já teve Tieta em cartaz de setembro de 1994 a abril de 1995. Além disso, nos anos 2010 houve o lançamento de um compacto em DVD (com 11 discos) e uma reapresentação no Canal VIVA (em 2017).

Um questionamento que logo ocorreu nas redes sociais diz respeito justamente a um expediente utilizado na reprise dos anos 1990, quando o Vale a Pena Ver de Novo era exibido na faixa das 14h: a abertura, que mostra a nudez de Isadora Ribeiro mesclada à natureza, foi adaptada para que os créditos encobrissem a modelo. Já consta que para essa nova reprise em TV aberta a abertura da novela vá ser modificada outra vez.

Quem conhece os predicados de Tieta, que fizeram dela o clássico que é, sabe que realmente é uma novela que vale a pena ver de novo, como a sessão diz. No entanto, para quem não a conheça, sempre é bom afirmar suas qualidades, que a tornam relevante e tão pedida mais de 30 anos depois de produzida.

Quando o romance de Jorge Amado, Tieta do Agreste, chegou à TV, o País respirava ares de liberdade, esperança e democracia, ainda em clima de redemocratização – a eleição de Fernando Collor de Mello à Presidência da República, no primeiro pleito direto para o cargo desde 1960, ocorreu com a novela no ar, em dezembro – e um ano depois da promulgação da Constituição “Cidadã” de 1988.

Depois de histórias como Roque Santeiro (1985-1986), Roda de Fogo (1986-1987), Vale Tudo (1988) e O Salvador da Pátria (1989), Tieta seguia no horário das 20h a tendência de abordar temas adultos e em pauta uma discussão e reconstrução do Brasil.

Empoderamento feminino, liberdade sexual, intolerância, hipocrisia travestida de religião, a beata com uma caixa de conteúdo misterioso, incesto, pedofilia, prostituição, virgindade, adultério, pautas “progressistas”, um “trisal” que se forma, o embate entre a preservação das belezas naturais de Mangue Seco e sua deterioração, que a abertura ao turismo pode provocar… Tudo isso, com erotismo e sensualidade, está contido em Tieta, e de uma forma que as novelas recentes têm reservas em abordar da mesma forma orgânica e natural, dados os tempos que temos vivido.

Claro que Tieta ser como é – e que bom que seja – tem diretamente a ver com os profissionais envolvidos em sua realização e o momento em que a novela foi transmitida. Há algum contraste quando pensamos nos “atuais padrões morais do País” – lembram-se das mudanças na abertura de Mulheres de Areia (1993), quando de sua reprise no mesmo Vale a Pena Ver de Novo em 2011-2012? -, que podem fazer telespectadores reclamarem de uma novela construída como Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares construíram, em pleno fim de tarde.

A imagem envelhecida – ainda que melhorada digitalmente -, o ambiente regional, estereótipos, possíveis excessos em machismo, homofobia etc. – devidamente inseridos no contexto da época, o que muitas pessoas ignoram ou fingem ignorar -, mais os temas abordados pela história podem tanto ajudar, no seu contraste com o que vemos hoje, quanto atrapalhar, pelo mesmo motivo.

Existe toda uma geração que não conhece Tieta a fundo – poucas pessoas têm VIVA, Globoplay, compraram os DVDs etc. – e não está habituada a um tipo de novela que quem nasceu até os anos 1980 conhece e no geral aprova.

Se os jovens que podem ver TV na faixa das 17h “derem uma chance” para uma produção mais antiga, representativa, importante, da qual seguramente já ouviram falar, pode dar certo. Se o conservadorismo (falso ou verdadeiro) que assolou o Brasil não atrapalhar nem criar caso, também. E justamente esses contrastes com as novelas de hoje, com Tieta indo na contramão e sendo uma “novela raiz”, podem ajudar em seu sucesso. Ou atrapalhar.

Como início das comemorações de seus 60 anos, a TV Globo aposta, para o Vale a Pena Ver de Novo, numa novela saudosa, querida, pedida e que tem sim bastante potencial de celebrar a data com êxito de audiência – mesmo que esse êxito eventualmente não supere o de novelas mais recentes, e não custa lembrar que a própria Alma Gêmea que agora está perto do fim tem quase 20 anos.

Caso isso aconteça, podemos sim esperar que a emissora aposte, mesmo fora de comemorações, em reprises de novelas anteriores à primeira metade da década de 1990 – até Tieta, o tempo “limite” foi de 30 anos, com a recente reapresentação de Mulheres de Areia na chamada Edição Especial, em 2023-2024. Então também tem a ver com a gente: para que outros clássicos um pouco mais antigos também possam ter a chance de voltar, façamos com que esse retorno inesperado de Tieta vingue no ibope.

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