Opinião

Tony Ramos transforma Otoniel no retrato doloroso de um afeto contaminado pelo preconceito em Quem Ama Cuida

Ao dar humanidade a um avô conservador sem suavizar sua violência, o ator mostra como a homofobia também pode se esconder dentro das relações familiares

Publicado em 14/07/2026

Há algo profundamente inquietante em ver um homem cercado de flores produzir tanta dor dentro de casa. Otoniel, personagem de Quem Ama Cuida, pertence a uma geração que aprendeu a chamar controle de cuidado, silêncio de respeito e preconceito de conselho. Tony Ramos entende que o perigo desse homem não está na aparência de vilão, mas justamente na normalidade. Ele trabalha, ama a família e acredita estar protegendo os seus. Ainda assim, suas palavras ferem o próprio neto e transformam o lar, que deveria acolher, em território de medo.

Nas mãos de Tony Ramos, Otoniel não se torna uma caricatura do conservadorismo. O ator preserva a humanidade do personagem sem oferecer desculpas para sua homofobia. Ao repreender Mau Mau (João Victor Gonçalves) por cozinhar, cuidar da casa ou não corresponder ao modelo de masculinidade que considera aceitável, o avô revela uma violência antiga, passada de geração em geração como se fosse herança moral. Tony sustenta essas cenas com uma dureza desconfortável, permitindo que o público reconheça naquele homem alguém que poderia estar sentado à mesa de muitas famílias brasileiras.

A contradição é quase literária. Otoniel fiscaliza a masculinidade do neto enquanto ganha a vida entre flores, como Mau Mau observa em uma das respostas mais contundentes da trama. Mas a cena não existe para diminuir o personagem. Existe para expor o absurdo de um mundo que distribui tarefas, gestos e sentimentos conforme o gênero. Enquanto o rapaz chora escondido, Adriana (Letícia Colin) oferece o acolhimento que o avô não consegue dar. É nesse contraste que a novela mostra a diferença entre amar alguém e permitir que essa pessoa exista por inteiro.

Tony Ramos já atravessou décadas da televisão brasileira emprestando grandeza a homens generosos, frágeis, contraditórios e autoritários. Em Otoniel, encontra um dos desafios mais importantes de sua maturidade artística: dar rosto a um preconceito que muitas vezes se apresenta como amor de família. Ao definir esse comportamento como inaceitável, o ator também compreende a função maior da ficção. Não basta emocionar. Às vezes, é preciso colocar o espelho diante da sala de jantar e obrigar todos a enxergar aquilo que preferiam chamar apenas de costume.

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