Foco na TV

Tatá Werneck fora da caixinha: a autora que a televisão ainda precisa aprender a ler

Com sinopse aprovada pela Globo, artista dá mais um passo em uma trajetória que sempre foi maior do que o rótulo da comédia

Publicado em 02/07/2026

Há artistas que a televisão tenta organizar em prateleiras porque é mais fácil compreender o talento quando ele vem com etiqueta. Tatá Werneck passou anos sendo chamada de comediante, como se a palavra, em vez de abrir possibilidades, servisse para reduzi-la. O problema nunca esteve na comédia, que é uma arte imensa e cruelmente difícil. O problema está em tratar o humor como um cercado, como se quem faz rir não pudesse também pensar estrutura, criar personagens, escrever conflito, dominar ritmo, entender melodrama e construir uma novela inteira.

A aprovação inicial da sinopse de Tatá pela Globo, ainda em fase embrionária e cercada de sigilo, tem um peso simbólico maior do que parece. A trama, pensada para a faixa das sete, ainda precisa atravessar etapas naturais de desenvolvimento, argumentos, perfis de personagens, escaletas e avaliações internas. Nada disso diminui a importância do movimento. Ao contrário. Mostra que a emissora reconhece nela algo que parte do público e de certa crítica demorou a admitir: Tatá não é apenas uma intérprete brilhante de improvisos. É uma criadora.

E talvez seja justamente aí que mora o incômodo. Muita gente, especialmente muitos homens acostumados a decidir o tamanho do talento feminino, tentou colocar Tatá em uma caixinha confortável: a mulher engraçada, rápida, espalhafatosa, dona de tiradas irresistíveis. Só que Tatá sempre escreveu mais do que piadas. Ela escreve pensamento. Escreve persona. Escreve timing. Escreve a própria maneira de existir diante da câmera. Para quem não sabe, boa parte daquilo que ela produz nasce também de sua mão, de sua cabeça, de sua escuta rara para o absurdo cotidiano. Ela saca de televisão, de audiência, de linguagem, de personagem e de Brasil.

O fato de conciliar esse novo projeto com seus trabalhos como roteirista de humorísticos e com a atuação em Quem Ama Cuida, na pele de Brigitte, diz muito sobre sua potência. Tatá não chega à dramaturgia como aventureira. Chega como alguém que passou anos observando o mecanismo por dentro, entendendo onde a cena respira, onde o público ri, onde a emoção quebra, onde o silêncio vale mais do que a frase. Se a novela avançar até a fila de exibição, possivelmente para 2028, poderá marcar um capítulo importante na história da Globo, especialmente pelo lugar de uma atriz-autora assumindo a condução de um folhetim.

A televisão brasileira sempre precisou de gente que conheça o popular sem pedir desculpas por isso. Tatá conhece. Ela tem ouvido de rua, velocidade de palco, inteligência de texto e uma intuição rara para perceber quando o público quer afeto, ironia ou desordem. Sua ascensão como possível autora de novela não é um capricho de celebridade. É consequência de uma artista que nunca coube no espaço estreito que quiseram lhe dar. Se der certo, será sucesso não apenas porque Tatá é famosa, mas porque ela entende algo fundamental: novela boa nasce quando técnica e alma popular deixam de brigar e começam a conversar.

O conteúdo veiculado nesta coluna é de total responsabilidade do colunista parceiro. As opiniões e informações aqui expressas não são de responsabilidade do Grupo Observatório.

Assuntos relacionados: