A televisão costuma ser julgada pelo que explode. Pela fala que viraliza, pelo choro que transborda, pelo impacto imediato que atravessa a sala antes mesmo que a cena termine. Mas, muitas vezes, sua grandeza está no gesto contrário: no que ela escolhe conter. No julgamento de Adriana em Quem Ama Cuida, a força não veio do excesso nem da tentativa de arrancar emoção a qualquer custo. Veio de uma direção que compreendeu a gravidade daquele momento e tratou a dor como matéria sensível. Sob a batuta artística de Amora Mautner, Nathalia Ribas conduziu uma das sequências mais delicadas da novela das nove com raro domínio de tom, tempo e respiração.
Veja também:
A cena tinha todos os elementos para cair na armadilha do melodrama mais ruidoso: uma mulher injustiçada, uma condenação devastadora, um amor declarado no limite da perda e um beijo antes da separação. Mas a direção escolheu outro caminho. Letícia Colin, como Adriana, não foi empurrada para o desespero ornamental. A atriz foi amparada por uma mise-en-scène que confiou em seu rosto, em seus silêncios e na dor acumulada no corpo. O sofrimento apareceu sem precisar ser sublinhado. E justamente por isso atingiu mais fundo.
O beijo entre Adriana e Pedro, vivido por Chay Suede, também escapou do lugar comum. Não houve ali apenas a recompensa romântica esperada pelo público. Houve uma urgência triste, quase uma promessa feita tarde demais. Nathalia Ribas parece compreender que o melodrama permanece quando a câmera não violenta o sentimento. O enquadramento, o ritmo e a entrega dos atores construíram uma despedida provisória, mas emocionalmente definitiva. Era amor, sim, mas também derrota, medo e resistência.
Há, nessa sequência, um dado que merece atenção. Quem Ama Cuida é uma novela atravessada por mulheres em posições decisivas de criação e comando. Amora Mautner imprime a régua artística da obra, Nathalia Ribas assina a direção de uma passagem central, e a equipe feminina que sustenta parte importante desse processo ajuda a dar à trama uma textura menos óbvia. Não se trata de reduzir tudo a um suposto olhar feminino, como se sensibilidade fosse uma essência. Trata-se de reconhecer uma escuta cênica que evita esmagar a emoção dos personagens. Há firmeza, não suavidade decorativa. Há comando, não delicadeza como enfeite.
É nesse equilíbrio que Quem Ama Cuida encontra um de seus melhores momentos. A sequência do julgamento não brilha apenas porque move a trama. Brilha porque revela um entendimento sofisticado do popular. A novela fala com muita gente, mas não trata o público como incapaz de perceber nuance. Ao contrário, confia que pausa, olhar e silêncio também comunicam. Nathalia Ribas, sob o desenho maior de Amora Mautner, transforma uma cena de tribunal em experiência emocional. E lembra que, quando há tato, técnica e verdade, a televisão ainda sabe cortar o coração sem perder a elegância.
O conteúdo veiculado nesta coluna é de total responsabilidade do colunista parceiro. As opiniões e informações aqui expressas não são de responsabilidade do Grupo Observatório.
