A televisão costuma revelar muito sobre um ator justamente quando lhe entrega pouco espaço. Há personagens que entram em cena para mover a engrenagem principal da trama. Outros aparecem, aparentemente, para aliviar o peso do melodrama. Mas é nesse segundo território, tantas vezes subestimado, que se percebe uma verdade antiga da dramaturgia: não existe papel pequeno quando há uma grande atriz diante dele.
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Em Quem Ama Cuida, Tilde (Luana Martau), nome artístico de Matilde, poderia ser apenas a funcionária doméstica engraçada da mansão dos Brandão. Trabalha como arrumadeira, circula pelos bastidores do luxo e sonha em virar influenciadora digital. Usa o acesso à casa dos patrões para gravar vídeos, comentar extravagâncias, observar privilégios e transformar a distância entre riqueza e trabalho em humor. Nas mãos de uma atriz menor, talvez fosse só uma caricatura.
Luana Martau, porém, entende que Tilde precisa de mais do que graça. A personagem tem sotaque, ironia, presença popular e um olhar muito atento para o mundo que a cerca. Quando comenta a rotina exaustiva, a desigualdade ou a vida dos patrões, ela não está apenas fazendo piada. Está traduzindo, com leveza, uma tensão social que a novela nem sempre precisa explicar em discurso. Tilde vê o que muitos fingem não ver.
O mérito de Luana está justamente em não disputar a cena à força. Ela ocupa o espaço com naturalidade, dá ritmo aos diálogos e faz a personagem respirar verdade. Há talento, há técnica e há escuta. Mas há também algo mais raro: carisma. E carisma não se compra em mercado, não se fabrica em laboratório, não se resolve com figurino ou frase de efeito. Ou a câmera reconhece, ou não reconhece. Em Luana, ela reconhece.
Com a morte de Arthur Brandão (Antonio Fagundes), Tilde passa a circular em um ambiente ainda mais tenso, agora sob o comando de Pilar (Isabel Teixeira). A mansão deixa de ser apenas cenário de ostentação e vira um campo de sobrevivência, disputa e medo. Ainda assim, a personagem conserva uma energia própria, como se trouxesse para dentro da novela uma respiração popular, irônica e necessária.
Por isso, Tilde cresce. Não porque a trama force sua importância, mas porque Luana Martau sabe transformar presença em acontecimento. Ela prova que uma boa atriz não espera a personagem ser grande para engrandecê-la. Faz isso no detalhe, no olhar, na pausa, no jeito de dizer uma frase aparentemente simples como quem sabe que, na televisão, as melhores revelações muitas vezes acontecem pelas bordas.
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