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Opinião: O brilho de Claudia Souto em Quem Ama Cuida não pode ser tratado como detalhe

Novela das nove evidencia a força de uma autora que entende gente comum, constrói diálogos verdadeiros e merece reconhecimento à altura

Publicado em 02/06/2026

Há um hábito antigo na televisão brasileira que insiste em sobreviver ao tempo. Quando uma novela faz sucesso, os elogios costumam encontrar rapidamente os homens envolvidos no projeto. Quando há uma mulher dividindo a criação, muitas vezes seu trabalho passa a ser tratado como detalhe, apoio ou complemento. É uma dinâmica silenciosa, mas recorrente. Por isso, chama atenção que parte das análises sobre Quem Ama Cuida continue citando apenas Walcyr Carrasco quando a novela exibe, capítulo após capítulo, marcas evidentes da escrita de Claudia Souto, uma das autoras mais talentosas e consistentes da televisão brasileira contemporânea.

Ninguém precisa diminuir Walcyr para reconhecer Claudia. Ao contrário. A força da novela está justamente no encontro de dois profissionais que conhecem profundamente o gênero. Walcyr domina como poucos a engenharia dos grandes acontecimentos, das viradas e dos ganchos que fazem o público voltar no dia seguinte. Claudia acrescenta algo igualmente precioso: o ouvido. É nos diálogos, nas relações familiares, nos pequenos constrangimentos cotidianos e nas conversas que parecem ter saído da mesa de jantar de qualquer brasileiro que sua assinatura aparece com mais nitidez.

Quem acompanha sua trajetória sabe que isso não surgiu agora. Antes de chegar ao horário nobre, Claudia construiu uma carreira sólida atravessando humorísticos, programas populares e novelas. Passou por Casseta & PlanetaOs TrapalhõesSai de BaixoOs Caras de Pau, colaborou em novelas de sucesso e depois provou sua capacidade como autora principal em trabalhos como Pega PegaCara e Coragem e Volta por Cima. Em todos eles havia uma característica constante: personagens que falavam como gente de verdade. Pode parecer simples. Não é. Talvez seja uma das habilidades mais difíceis da dramaturgia.

Em Quem Ama Cuida, isso aparece de maneira cristalina. Os conflitos de Adriana, Otoniel, Elisa, Pedro e tantos outros personagens carregam uma humanidade que nasce da observação. Há uma compreensão genuína sobre as dores, as limitações e os sonhos das pessoas comuns. Claudia conhece esse universo porque escreve olhando para ele. Não existe distância sociológica nem caricatura. Existe familiaridade. Ela entende o público popular não como estatística de audiência, mas como gente. E essa diferença aparece na tela.

Talvez por isso a novela tenha encontrado identificação tão rapidamente. O público percebe quando está sendo tratado com respeito. Existe um equívoco persistente de que a televisão popular precisa simplificar emoções ou empobrecer diálogos para se comunicar com milhões de pessoas. Claudia Souto pertence à escola oposta. Acredita que o espectador é capaz de reconhecer nuances, contradições e personagens complexos. E a resposta do público costuma confirmar essa aposta.

Também não passa despercebido que o apagamento parcial de sua autoria reproduz um movimento conhecido em diversas áreas criativas. Mulheres frequentemente precisam produzir mais para receber reconhecimento equivalente. Na televisão, isso acontece há décadas. Quantas autoras, diretoras, roteiristas e produtoras viram seu trabalho ser tratado como coadjuvante em projetos dos quais eram protagonistas? O problema não está apenas no crédito formal. Está na forma como a narrativa pública sobre essas obras é construída.

Claudia Souto não precisa de favor nem de reparação simbólica. Sua carreira fala por si. Mas reconhecer seu papel em Quem Ama Cuida é também reconhecer a qualidade do que ela entrega. Há inteligência emocional nos diálogos, compreensão do Brasil real nas relações familiares e uma rara capacidade de fazer personagens parecerem pessoas que conhecemos. São qualidades que não surgem por acaso. São fruto de mais de três décadas de experiência, observação e trabalho.

No fim, a melhor resposta talvez esteja na própria novela. Quando um espectador se emociona com uma conversa aparentemente simples entre personagens, quando uma cena doméstica ganha verdade ou quando um diálogo parece ecoar algo vivido fora da tela, existe uma autora por trás dessa sensação. Em Quem Ama Cuida, essa autora também se chama Claudia Souto. E está mais do que na hora de o reconhecimento acompanhar o tamanho de sua contribuição.

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