Há atores que entram em cena pelo efeito imediato. Outros permanecem porque sabem construir presença. Em A Nobreza do Amor, Marcelo Médici pertence ao segundo grupo. Conhecido do grande público pela força cômica, pelo tempo exato da piada e por uma galeria popular de tipos televisivos, ele faz na novela das seis um trabalho mais difícil do que parece: interpreta dois irmãos gêmeos sem tratar a duplicidade como truque. O resultado é uma atuação que chama atenção não pelo artifício, mas pela diferença interna entre dois homens que carregam o mesmo rosto e destinos opostos.
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Como Padre Viriato, Marcelo Médici compõe um sacerdote ranzinza, rígido e mal-humorado, mas nunca vazio. Há nele uma aspereza quase familiar, construída em pequenas inflexões, no corpo fechado, na fala atravessada por uma autoridade antiga. O ator encontra graça no mau humor sem transformar o personagem em caricatura. Viriato funciona porque parece alguém que sempre viveu em Barro Preto, observando tudo, julgando todos e sustentando uma espécie de consciência incômoda da cidade. É um tipo que poderia ser apenas cômico, mas ganha densidade na economia da interpretação.
Já Valdevino, o Carrapato, exige outra chave. O cangaceiro chega como tumulto, ameaça e passado mal resolvido, mas Marcelo evita fazer dele apenas o oposto espalhafatoso do padre. O ator muda o eixo do corpo, a temperatura do olhar, o ritmo da fala. Carrapato tem desordem, medo, esperteza e uma humanidade ferida que aparece sobretudo quando a trama revela seus vínculos familiares. A descoberta de que ele é pai biológico de Belmira amplia o personagem e permite que Médici toque em um registro dramático pouco associado à sua imagem mais popular. É aí que sua atuação surpreende: ele não abandona o humor, mas o coloca a serviço da dor.
O papel duplo poderia soar como demonstração técnica. Nas mãos de Marcelo Médici, vira comentário sobre ofício. A televisão gosta de rostos reconhecíveis, mas nem sempre oferece a esses rostos a chance de se desdobrar. A Nobreza do Amor oferece, e o ator responde com maturidade. Entre o padre que tenta ordenar o mundo e o cangaceiro que chega para bagunçá-lo, Marcelo confirma algo que sua carreira já sugeria: sua comicidade sempre nasceu de observação humana, não de facilidade. Por isso, quando o drama aparece, ele não parece deslocado. Parece apenas a outra face de um intérprete que conhece, como poucos, o peso e o riso de estar em cena.
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