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Opinião: Amora Mautner e Amauri Soares elevam a régua de Quem Ama Cuida

A novela das nove combina direção sofisticada, gestão criativa e uma estrutura que valoriza talento, diversidade e excelência

Publicado em 04/07/2026

Há um instante raro na televisão em que o espectador deixa de notar o mecanismo. A câmera desaparece. O corte deixa de chamar atenção. A trilha não pede licença. O movimento dos atores parece inevitável, como se tudo tivesse simplesmente acontecido diante dos olhos de quem assiste. Não é improviso. É precisamente o contrário. Trata-se de uma arquitetura narrativa tão bem construída que faz desaparecer o esforço por trás dela. É nesse território que a direção artística de Amora Mautner alcança sua expressão mais sofisticada em Quem Ama Cuida.

Dirigir uma novela diária continua sendo uma das tarefas mais complexas da indústria audiovisual. Enquanto séries podem lapidar uma temporada durante meses e o cinema trabalha com cronogramas muito mais dilatados, o folhetim exige que um longa-metragem seja produzido praticamente todos os dias. São centenas de profissionais, dezenas de cenários, múltiplos núcleos dramáticos, limitações de tempo, mudanças constantes e uma engrenagem que simplesmente não pode parar. Ainda assim, quando tudo funciona, o público não percebe a operação. Percebe apenas a emoção. Talvez esse seja o maior elogio que um diretor possa receber.

Em Quem Ama Cuida, Amora Mautner reafirma uma assinatura construída ao longo de anos: a capacidade de transformar uma estrutura industrial em uma narrativa profundamente humana. Sua direção evita o automatismo tão comum em produtos diários. A câmera nunca parece estar apenas registrando acontecimentos; ela participa deles. Os enquadramentos aproximam o espectador das personagens, os silêncios ganham tanto peso quanto os diálogos e o ritmo dramático encontra equilíbrio entre intensidade e delicadeza.

Essa identidade visual jamais nasce de um gesto isolado. Ao contrário do que muitas vezes se imagina, direção artística não é um exercício de individualidade, mas de coordenação. É a capacidade de fazer centenas de talentos caminharem na mesma direção. Em Quem Ama Cuida, fotografia, direção de arte, figurino, caracterização, produção, montagem e elenco respiram o mesmo ar. A novela possui unidade estética porque existe uma liderança capaz de organizar diferentes sensibilidades sem sufocá-las.

Talvez seja justamente por isso que um fenômeno curioso tenha começado a acontecer fora da tela. Pela primeira vez, o nome de Amora Mautner passou a circular espontaneamente entre espectadores comuns, não apenas entre profissionais da televisão ou críticos especializados. Diretores costumam ser lembrados quando algo dá errado. Quando passam a ser citados como sinônimo de qualidade, significa que ultrapassaram a invisibilidade natural da função e conquistaram um espaço raríssimo na percepção do público.

Mas seria um equívoco atribuir esse resultado apenas ao talento de uma diretora. Grandes obras também dependem do ambiente que as torna possíveis. E, nesse aspecto, existe um nome que aparece menos diante das câmeras, mas cuja influência atravessa praticamente toda a atual fase da dramaturgia da Globo: Amauri Soares.

Ao longo de quase quatro décadas na emissora, Amauri consolidou uma forma muito particular de compreender televisão. Sua gestão jamais pareceu orientada exclusivamente pelos números da audiência. Evidentemente, audiência importa. Sempre importará. Mas há uma diferença entre produzir apenas para vencer a concorrência e construir uma empresa capaz de formar patrimônio artístico duradouro. Essa talvez seja sua principal contribuição.

Sob sua liderança, consolidou-se uma visão segundo a qual a televisão continua sendo um organismo humano antes de ser uma máquina de resultados. Isso explica movimentos que carregam profundo significado para a emissora. Entre eles está a valorização dos grandes atores veteranos, garantindo estabilidade e reconhecimento a quem ajudou a construir a identidade da Globo, ao mesmo tempo em que abriu espaço para uma renovação consistente de autores, diretores e profissionais criativos.

Outro aspecto importante de sua gestão foi ampliar a presença feminina em posições de liderança. Nos últimos anos, houve um crescimento superior a 30% de mulheres em cargos estratégicos dentro dos Estúdios Globo. Mais do que um dado administrativo, essa mudança ampliou perspectivas criativas e fortaleceu um ambiente em que diferentes olhares passaram a ocupar espaços decisivos na construção das novelas.

Não por acaso, Quem Ama Cuida nasce exatamente dessa filosofia. A novela reúne uma equipe criativa fortemente marcada pela presença feminina em funções centrais, da autoria à direção artística, passando por diversos setores responsáveis pela identidade da obra. O resultado aparece na tela de forma natural, sem alarde, mas perceptível na maneira como os conflitos são conduzidos e como as personagens são desenvolvidas.

Amauri Soares parece compreender que televisão não é feita apenas de programação, mas de pessoas. Seu maior legado talvez seja justamente criar condições para que talentos floresçam, oferecendo estrutura, liberdade criativa e confiança às equipes responsáveis por transformar ideias em histórias capazes de mobilizar milhões de espectadores.

É nesse encontro entre gestão e criação que Quem Ama Cuida encontra sua força. Amora Mautner imprime personalidade a cada capítulo porque trabalha dentro de uma estrutura que acredita na excelência como método, não como exceção. Sua direção sofisticada dialoga com uma visão de televisão que entende que inovação não significa romper com a tradição, mas fazê-la evoluir.

No fim, sobra aquilo que realmente importa. O público não acompanha cronogramas, reuniões ou decisões estratégicas. Acompanha personagens, conflitos e emoções. Quando tudo isso acontece com naturalidade, é porque existe uma cadeia criativa funcionando em plena sintonia. Quem Ama Cuida demonstra que a televisão continua sendo uma arte coletiva — e que, quando direção talentosa e liderança visionária caminham juntas, o resultado ultrapassa a tela e reafirma a força do folhetim brasileiro.

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