Opinião

O que aconteceu com Cissa Guimarães no Sem Censura explica um problema da TV atual

Dois anos após assumir a atração, apresentadora transformou entrevistas em encontros e recuperou algo raro na televisão

Publicado em 20/05/2026

Existe uma pressa estranha contaminando a televisão. É a urgência da frase curta, do corte imediato, da reação pronta, da disputa permanente por atenção. Tudo precisa prender, explodir, viralizar. Nesse processo, boa parte da TV passou a tratar companhia como detalhe. E companhia nunca foi detalhe. Talvez por isso a permanência de certos programas diga tanto sobre quem apresenta quanto sobre a falta que determinadas experiências ainda fazem.

Dois anos após assumir o Sem Censura, Cissa Guimarães parece ter encontrado algo que o meio audiovisual passou um tempo tentando substituir por fórmulas. Desde fevereiro de 2024, à frente da nova fase da atração da TV Brasil, ela trouxe profissionalismo, estudo e método. Já contou que pesquisa convidados, faz contato antes das entrevistas e mergulha nos assuntos. Mas isso explica apenas parte da história. O diferencial está menos na preparação e mais na presença. Cissa ocupa o espaço sem atropelar o espaço do outro.

Existe uma característica rara nos bons entrevistadores. A capacidade de criar a sensação de que ninguém está diante de uma entrevista. Todos estão dentro dela. O Sem Censura recuperou algo que a televisão brasileira já conheceu muito bem: a conversa que desacelera o tempo. Não há uma ansiedade para chegar logo à próxima pergunta nem o vício do espetáculo permanente. Há escuta. Há reação. Há curiosidade genuína. O programa parece menos interessado em cumprir pauta e mais empenhado em construir permanência.

Talvez por isso os resultados tenham ultrapassado a tela e encontrado eco também nos números digitais e em premiações. Mas existe algo mais importante acontecendo. Em tempos de excesso de estímulo e escassez de vínculo, Cissa Guimarães transformou uma atração diária em um lugar de acolhimento. E talvez seja justamente aí que esteja o problema de parte da TV atual: ela corre tanto atrás do público que, às vezes, esquece de convidá-lo a ficar.

O conteúdo veiculado nesta coluna é de total responsabilidade do colunista parceiro. As opiniões e informações aqui expressas não são de responsabilidade do Grupo Observatório.

Assuntos relacionados: