Opinião

Mariana Ximenes prova que não existe papel pequeno para uma grande atriz

Como Dora em Quem Ama Cuida, atriz transforma uma personagem que parecia discreta em peça decisiva da trama ao lado de André, o sobrinho que vira seu calcanhar de Aquiles

Publicado em 28/06/2026

Há atrizes que precisam de grandes discursos para ocupar uma novela. Mariana Ximenes não. Ela pertence a uma linhagem mais rara, a das intérpretes que entram por frestas aparentemente pequenas e, quando o público percebe, já tomaram conta da cena. Em Quem Ama Cuida, novela das nove da Globo, sua Dora começou em registro mais discreto, quase tímido diante do furacão de crimes, heranças e vinganças que movimenta a trama. Mas bastou a história abrir uma porta para que Mariana lembrasse ao público uma verdade simples: não existe papel pequeno quando há uma grande atriz em cena.

Essa porta atende pelo nome de André (Henrique Barreira). A chegada do sobrinho de Ademir (Dan Stulbach) desloca Dora do lugar de coadjuvante doméstica e a coloca no centro de uma tensão perigosa, íntima e cheia de consequências. O flagrante do rapaz de cueca dentro de casa poderia ser apenas uma situação constrangedora, quase anedótica. Nas mãos de Mariana, porém, vira faísca dramática. O olhar de Dora muda, o corpo reage antes da fala, a personagem descobre uma espécie de vida represada. A química entre Mariana e Henrique Barreira faz o público entender, de imediato, que há ali mais do que um desvio romântico: há um incêndio prestes a alcançar a família inteira.

Dora é, talvez, uma das figuras mais interessantes desse novo eixo da novela porque não se resume à mulher que trai. Ela é também uma mulher que parece despertar tarde para o próprio desejo, para a própria insatisfação e para o peso de viver ao lado de um homem como Ademir, atravessado por arrogância, controle e segredos. A paixão proibida por André funciona como escândalo, mas também como sintoma. É o ponto em que uma personagem antes contida começa a produzir ruído. E Mariana Ximenes sabe trabalhar esse tipo de ambiguidade com precisão: não pede absolvição para Dora, mas também não a entrega como caricatura.

Sem dúvida, Dora ainda pode cavar a cova moral do marido e lavar a alma do público. Em uma novela marcada por injustiças contra Adriana (Letícia Colin), o segredo entre Dora e André tem potencial para atingir Ademir onde ele mais se protege: na imagem, no orgulho e na falsa sensação de controle. A traição, nesse caso, não é apenas um caso proibido. É uma fissura na casa de quem ajudou a sustentar mentiras. E, quando essa fissura crescer, Mariana Ximenes estará pronta para fazer o que sempre soube fazer: transformar uma personagem aparentemente lateral em um acontecimento.

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