Foco na TV

Lucille Ball e Tatá Werneck: Quando a comédia deixa de pedir licença

De I Love Lucy ao Lady Night, duas mulheres transformaram o riso em poder, linguagem e revolução televisiva

Publicado em 17/06/2026

A televisão costuma reconhecer mulheres engraçadas depois que tenta domesticá-las. Primeiro estranha o corpo que não se comporta, a voz que atravessa o protocolo, a inteligência que desmonta a cena, a comicidade que não cabe no lugar delicado reservado às mulheres. Depois, quando o público entende antes da indústria, passa a chamá-las de geniais. Lucille Ball e Tatá Werneck pertencem a essa linhagem rara: artistas que não apenas fizeram rir, mas obrigaram a televisão a mudar de ritmo para acompanhá-las. Separadas por décadas, países e formatos, as duas transformaram o humor em uma forma de autoria.

Lucille fez isso com I Love Lucy, marco absoluto da televisão americana. A série não foi apenas um sucesso popular, mas uma reinvenção industrial da sitcom. Ao lado de Desi Arnaz, Lucille ajudou a consolidar o uso de três câmeras, plateia ao vivo e uma dinâmica de filmagem que influenciaria a comédia televisiva por gerações. Mas a revolução mais profunda estava em cena. Lucy Ricardo não era uma mulher feita para ornamentar o lar televisivo. Era desastrada, ambiciosa, barulhenta, insistente, corporal, ridícula quando queria ser sofisticada e brilhante justamente porque se permitia fracassar diante do público. Lucille entendeu cedo que o erro, quando dominado por uma grande comediante, vira arquitetura.

Tatá Werneck opera em outra chave, mas com uma força parecida. No Lady Night, ela não criou uma sitcom clássica, nem tenta reproduzir a solenidade dos grandes entrevistadores. O que faz é desmontar o talk show por dentro. Tatá acelera a conversa, interrompe o convidado, se interrompe, expõe a própria ansiedade, ri de si mesma, atravessa a quarta parede e transforma constrangimento em método. Onde Lucille fazia o corpo tropeçar com precisão coreográfica, Tatá faz a fala tropeçar em velocidade absurda. As duas encontraram no descontrole uma forma muito sofisticada de controle.

Há algo de profundamente político nesse gesto, ainda que ele venha embalado em piada. Lucille ouviu que não tinha talento e se tornou a primeira mulher a comandar um grande estúdio de televisão em Hollywood, a Desilu Productions, responsável por decisões que marcaram a história da indústria. Tatá também construiu sua autoridade contrariando diagnósticos fáceis: falava rápido demais, era exagerada demais, inadequada demais. O que poderia ser lido como defeito virou assinatura. As duas venceram porque não suavizaram a própria estranheza para caber melhor na tela.

A maternidade reforça esse paralelo. Em I Love Lucy, Lucille levou sua gravidez real para a televisão dos anos 1950, enfrentando os limites morais e publicitários de uma época em que até a palavra “grávida” era tratada com cuidado excessivo. Décadas depois, Tatá gravou o Lady Night grávida de Clara Maria e incorporou enjoos, cansaços e vulnerabilidades à cena. Em vez de desaparecer para preservar uma imagem ideal, ambas fizeram do corpo real uma extensão da comédia. A gravidez não interrompeu a potência artística. Virou matéria de televisão.

A diferença entre elas ajuda a explicar a grandeza de cada uma. Lucille construiu uma máquina. I Love Lucy tinha ritmo, repetição, marcação, engenharia cômica e domínio absoluto de timing. Tatá construiu um curto-circuito. Seu humor parece nascer no susto, no improviso e na desordem, embora exista ali uma inteligência rigorosa de edição, escuta e presença. Lucille organizava o caos até ele parecer inevitável. Tatá faz o caos parecer espontâneo, quando na verdade é ela quem segura a rédea da cena.

No fim, Lucille Ball e Tatá Werneck são revolucionárias porque deslocaram o centro da comédia televisiva. Lucille mostrou que uma mulher podia ser protagonista, produtora, empresária e dona da engrenagem que fazia o público rir. Tatá mostrou que uma mulher podia comandar um late-night de enorme sucesso no Brasil sem imitar a autoridade masculina, sem limpar o próprio excesso e sem abrir mão de um humor ácido, físico, verbal, absurdo e autodepreciativo. Uma mudou a sitcom com I Love Lucy. A outra reinventou a entrevista com o Lady Night.

As duas provaram que a comédia, quando nasce de uma mulher que controla sua própria linguagem, deixa de ser apenas entretenimento. Vira intervenção. Vira assinatura. Vira poder. Lucille Ball tingiu de vermelho a história da televisão americana e fez de I Love Lucy um monumento popular. Tatá Werneck acelerou a televisão brasileira até transformar a conversa em vertigem. Em comum, elas têm o gesto mais raro: não entraram na TV para caber. Entraram para bagunçar tudo, e foi justamente por isso que ficaram.

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