Há talentos que a televisão descobre. E há talentos que a televisão, de tempos em tempos, precisa ter humildade para reconhecer que já estão dentro de casa. Lívia Andrade pertence a essa segunda categoria. Em um mercado sempre ansioso por novos nomes, por apostas vindas de fora, por rostos capazes de provocar ruído imediato, a Globo tem diante de si uma comunicadora rara: alguém que fala com o público sem parecer ensaiada, que atravessa classes, idades e repertórios, e que entende a TV aberta não como vitrine de pose, mas como território vivo de conversa popular. No Domingão com Huck, ela já provou que não é apenas uma integrante de elenco. É uma presença.
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O mais fascinante em Lívia é que sua força não parece construída por cálculo. Há nela um tipo de carisma que nasce antes da técnica. Curso pode ensinar postura, marcação de câmera, leitura de roteiro, ritmo de apresentação. Mas não ensina presença. Não ensina resposta pronta no segundo exato. Não ensina a temperatura do improviso. Lívia tem aquilo que a televisão sempre buscou e nem sempre sabe valorizar: verdade em estado bruto. Ela entra no vídeo sem pedir licença demais, mas também sem endurecer. É direta, popular, espirituosa, feminina, solar e afiada. Uma combinação difícil, porque exige espontaneidade sem descontrole e personalidade sem perder comunicação.
Sua trajetória explica essa musculatura. Lívia foi moldada no calor da TV aberta, no contato com plateia, no humor de reação rápida, na convivência com um dos maiores comunicadores da história da televisão brasileira, Silvio Santos. No SBT, tornou-se um rosto popular não apenas porque aparecia, mas porque acontecia. No Jogo dos Pontinhos, no Fofocalizando, no Triturando e até na teledramaturgia, com a vilã Suzana Bustamante em Carrossel, ela aprendeu algo que nenhuma estratégia digital substitui: conversar com gente. E conversar com gente, na televisão, ainda é uma arte.
Por isso chama atenção vê-la, muitas vezes, sendo usada abaixo do seu potencial. Lívia poderia ter mais espaço no Domingão com Huck, mais quadros, mais presença opinativa, mais momentos de condução, mais situações em que sua inteligência popular pudesse respirar. Ela não precisa ser encaixada apenas como comentário, reação ou apoio. Ela tem corpo de apresentadora. Tem timing de palco. Tem domínio de entretenimento. E, sobretudo, tem uma coisa cada vez mais rara em tempos de televisão excessivamente formatada: a capacidade de parecer gente de verdade diante da câmera.
A Globo, que tantas vezes procura talentos fora de sua própria estrutura, tem uma preciosidade ali, à vista. Uma mulher que se reinventou sem apagar a própria origem, que atravessou emissoras sem perder identidade e que chega ao público com uma familiaridade poderosa. Lívia Andrade representa uma ponte entre a TV popular tradicional e a televisão contemporânea, entre o humor de auditório e a conversa de redes, entre a espontaneidade e a profissionalização. Aproveitá-la melhor não seria apenas um acerto de elenco. Seria um gesto de inteligência televisiva. Porque comunicadores assim não se fabricam. Eles nascem prontos para acender o estúdio.
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