Há personagens que atravessam uma novela como quem cumpre uma função dramática. E há personagens que parecem atravessar o próprio corpo do público. Adriana, em Quem Ama Cuida, pertence a essa segunda categoria. Seu calvário não é feito apenas de quedas sucessivas, mas de uma coleção de perdas que vai mudando a respiração da trama: a enchente, a reconstrução interrompida, a acusação injusta, a condenação, a prisão, o amor arrancado à força e a sensação brutal de que o mundo decidiu não ouvi-la.
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É nesse território de dor acumulada que Letícia Colin faz um trabalho peculiar, raro, desses que não dependem de uma cena isolada para se impor. A atriz não interpreta Adriana como uma vítima decorativa, nem como uma heroína blindada pela certeza moral. Ela constrói uma mulher em permanente fratura, alguém que tenta permanecer inteira enquanto tudo ao redor insiste em quebrá-la. Há uma inteligência muito fina em sua composição: o sofrimento aparece no olhar antes de virar palavra, no silêncio antes do choro, na rigidez do rosto antes da explosão.
O grande acerto de Letícia está em não transformar o martírio da personagem em excesso melodramático. Adriana sofre muito, mas nunca vira apenas sofrimento. Ela conserva dignidade, contradição, medo, raiva e uma humanidade que impede a personagem de se tornar símbolo vazio. Mesmo quando a trama empurra a fisioterapeuta ao fundo do poço, a atriz encontra pequenas frestas de vida. É por isso que o público compra sua dor, sua injustiça e, agora, sua futura vingança. A plateia não torce apenas para Adriana sair da cadeia. Torce para vê-la recuperar o direito de existir.
Com esse papel, Letícia Colin finalmente se instala em um lugar reservado a poucas intérpretes: o das grandes protagonistas da faixa das nove, o horário mais simbólico da teledramaturgia brasileira. Quem Ama Cuida entrega à atriz uma personagem de travessia, e ela responde com uma atuação de maturidade impressionante. Adriana entra para a novela como mulher condenada; Letícia entra para o hall da Globo como protagonista de prime time. E isso, numa televisão que ainda vive de rostos capazes de carregar o país pela mão, não é pouca coisa.
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