Opinião

Isabela Garcia transforma a dor de Elisa em catarse em Quem Ama Cuida

Como a mãe de Adriana, atriz entrega uma atuação delicada, devastadora e confirma a força de uma das intérpretes mais consistentes de sua geração

Publicado em 19/06/2026

Há cenas em que a novela deixa de ser apenas narrativa e se aproxima de um rito coletivo. O público não acompanha somente a queda de uma personagem, mas reconhece ali uma dor possível, familiar, quase doméstica. Em Quem Ama Cuida, esse efeito aparece com força na reação de Elisa Pereira de Morais (Isabela Garcia) ao descobrir a condenação da filha, Adriana (Letícia Colin). A sequência tem peso de catarse porque não se apoia no excesso. Ela nasce de uma atriz que entende que o sofrimento verdadeiro raramente precisa gritar para ocupar a cena inteira.

Isabela Garcia faz de Elisa uma mulher atravessada por perdas sucessivas. Filha de Otoniel (Tony Ramos), mãe de Adriana e de Mau Mau (João Victor Gonçalves), irmã de Ademir (Dan Stulbach), a personagem carrega no corpo a exaustão de quem já perdeu casa, chão e segurança depois da enchente. A condenação da filha, portanto, não chega como um drama isolado. Chega como mais uma violência sobre alguém que vinha tentando permanecer de pé. E a atriz compreende essa construção com precisão rara, deixando que a dor apareça no olhar, na respiração, na fragilidade física e na tentativa quase impossível de não desmoronar.

O grande mérito da interpretação está na medida. Isabela não transforma Elisa em uma mãe apenas desesperada, nem em uma figura passiva diante da tragédia. Ela dá à personagem uma densidade humana que mistura amor, impotência, medo e indignação. Ao reagir à injustiça contra Adriana, a atriz entrega uma das cenas mais emocionantes da novela, porque parece carregar não apenas a dor de Elisa, mas a dor de toda mãe que vê um filho ser engolido por uma sentença cruel. É nesse ponto que a atuação cresce: o particular vira universal.

Há décadas, Isabela Garcia ocupa a televisão brasileira com uma naturalidade que às vezes faz o público esquecer o tamanho de sua técnica. Em Quem Ama Cuida, ela reafirma esse lugar. Sua Elisa é amorosa sem ser frágil demais, protetora sem virar caricatura, sofrida sem perder dignidade. Na cena da condenação, a atriz entrega o seu melhor porque não interpreta apenas o choro de uma mãe. Ela traduz a derrota momentânea de uma família inteira. E mostra, com maturidade e verdade, por que continua sendo uma das melhores atrizes de sua geração.

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