Há atores que atravessam a tela pelo esforço. Outros, mais raros, parecem ocupar a cena com uma naturalidade que dispensa alarde. Chay Suede pertence a esse segundo grupo. Em Quem Ama Cuida, novela das nove da TV Globo escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, ele entrega em Pedro um protagonista de presença discreta, mas permanente. Não é o tipo de atuação que pede licença para brilhar. Ela se instala. Vai crescendo no olhar, no silêncio, na escuta e na maneira como o personagem reage ao mundo antes mesmo de falar.
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Pedro poderia ser apenas o advogado idealista da trama, o mocinho correto diante de um tribunal moralmente corrompido. Chay, porém, faz mais do que defender a integridade do personagem. Ele encontra a fratura. Pedro é um homem que começa a história admirando o pai e precisa lidar com a descoberta de que Ademir (Dan Stulbach), sua referência profissional e afetiva, pode estar no centro de métodos condenáveis. A quebra dessa admiração é um dos movimentos mais delicados da novela, e Chay compreende perfeitamente o peso da cena. Ele não transforma a decepção em gritaria. Faz dela um desgaste interno, uma tristeza que vai endurecendo até virar confronto.
O romance com Adriana (Leticia Colin) também confirma a força de sua interpretação. Ao lado de uma atriz de enorme densidade, Chay não tenta disputar a cena. Ele a escuta, sustenta e devolve emoção. A química dos dois nasce justamente dessa troca. Pedro ama Adriana com urgência, mas não com descontrole. Há no personagem uma espécie de devoção ética, como se defender a fisioterapeuta, condenada injustamente a 12 anos de prisão pela morte de Arthur (Antonio Fagundes), fosse também uma forma de proteger a própria ideia de justiça. Quando ele se declara, quando a beija, quando promete não desistir, Chay acerta o tom raro entre o melodrama e a verdade.
É bonito ver um ator jovem dominar tão bem os espaços da novela das nove. Chay tem carisma, mas não se apoia apenas nele. Tem beleza, mas não deixa que ela substitua trabalho. Tem popularidade, mas não atua como quem espera aplauso. Ele preenche a cena porque parece inteiro dentro dela. Há uma qualidade de presença que lembra os grandes atores de televisão: a capacidade de tornar compreensível o que o texto não precisa explicar. Pedro sofre pelo pai, por Adriana, pela injustiça, mas também por perceber que amadurecer, naquele universo, significa perder ilusões.
Não surpreende que, nos bastidores e no meio artístico, seu nome seja associado a uma tradição de atores de grande carisma e simplicidade, como Tony Ramos, unanimidade não apenas pelo talento, mas pela forma generosa de estar em cena e fora dela. A comparação não deve ser lida como peso, mas como reconhecimento de uma qualidade rara: Chay parece carregar a profissão sem afetação. Desde a projeção nacional em Ídolos, passando por Rebelde, até sua consolidação na Globo em trabalhos como Império, Segundo Sol, Amor de Mãe e Mania de Você, ele construiu uma trajetória que não dependeu de pressa. Foi amadurecendo diante do público.
Em Quem Ama Cuida, esse amadurecimento aparece com nitidez. Pedro é enigmático sem ser opaco, romântico sem ser ingênuo, correto sem parecer artificial. Chay Suede faz do personagem um homem em conflito com o sangue, com o amor e com a própria noção de justiça. É uma atuação de brilho contido, e talvez por isso tão forte. O Brasil o ama porque reconhece nele algo que a televisão sempre valorizou em seus melhores protagonistas: verdade, magnetismo e uma simplicidade que não empobrece a cena. Ao contrário, a torna maior.
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