Há bastidores que explicam uma novela antes mesmo de a cena chegar ao ar. Na última sexta-feira, 12, ver Amora Mautner em ação pela primeira vez foi perceber algo que a televisão nem sempre deixa o público enxergar: direção também é presença, escuta, memória e pulso. Já mergulhada na segunda fase de Quem Ama Cuida, a diretora artística comandava cenas do núcleo de Pilar (Isabel Teixeira), agora instalada na mansão de Arthur (Antonio Fagundes), em uma composição visual que reforçava a personagem como uma figura perua, dona do espaço e do excesso.
Veja também:
Amora tem uma voz que parece já pertencer ao imaginário dos Estúdios Globo. Firme, empostada, reconhecível, ela organiza o set sem transformar autoridade em distância. Fala com os atores, ajusta intenções, comenta passagens, lembra histórias. Em determinado momento, trouxe à conversa causos antigos da televisão, citando a criação de Painho, personagem eternizado por Chico Anysio, como quem costura o presente da novela a uma tradição maior da dramaturgia e do humor brasileiros. Não era apenas uma diretora dando marcações. Era uma profissional lembrando que televisão se faz também de repertório, memória e convivência.
Há algo especialmente simbólico em ver uma mulher ocupando esse lugar com tamanha naturalidade. Não como exceção celebrada em discurso, mas como comando efetivo de uma engrenagem grande, técnica e criativa. Amora conduz a cena com segurança de quem conhece o melodrama, entende o ritmo da novela e sabe que uma personagem como Pilar precisa ser dirigida no limite entre o veneno e o espetáculo. A vilã não existe só no texto. Ela nasce também da lente, do figurino, da movimentação, da temperatura que a direção estabelece ao redor dela.
O que chama atenção, no entanto, vai além da figura de Amora. Havia uma presença feminina forte no ambiente, espalhada entre elenco, equipe técnica e criação. Esse dado, visto de perto, muda a percepção do set. A novela das nove, tantas vezes tratada apenas como produto de massa, revela ali uma cadeia de mulheres trabalhando, decidindo, afinando gestos e sustentando a máquina. Em Quem Ama Cuida, a segunda fase ainda virá marcada por viradas, vinganças e disputas de poder. Mas, nos bastidores, uma outra cena já estava dada: Amora Mautner no centro do processo, com voz, memória e domínio, lembrando que direção também é uma forma de autoria.
O conteúdo veiculado nesta coluna é de total responsabilidade do colunista parceiro. As opiniões e informações aqui expressas não são de responsabilidade do Grupo Observatório.
