Há diretores que conduzem uma novela. Amora Mautner costuma fazer algo mais complexo: ela organiza uma experiência emocional. Em Quem Ama Cuida, nova novela das nove escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, sua presença na direção artística não é um detalhe de bastidor, mas uma chave de leitura. A trama nasce com enchente, morte, casamento improvável, assassinato e vingança, matéria-prima perfeita para uma diretora que entende que o folhetim popular precisa, antes de tudo, tocar o público sem pedir licença.
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O primeiro motivo para acreditar nesse impacto está justamente no retorno de Amora ao horário nobre. Depois de sete anos, ela volta a uma faixa em que cada escolha estética pesa mais, porque a novela das nove ainda é o grande palco da dramaturgia brasileira. O segundo motivo é sua capacidade de tratar o melodrama sem vergonha dele. Amora sabe que o público quer emoção, mas não aceita qualquer emoção. É preciso construção, ritmo, imagem, pausa, lágrima e explosão. Essa arquitetura afetiva é uma de suas marcas.
O terceiro motivo está na assinatura visual. A diretora costuma trabalhar com iluminação expressiva, enquadramentos carregados de sentido e uma direção que transforma ambiente em estado emocional. Em uma história que começa com a vida de Adriana (Letícia Colin) sendo destruída por uma enchente em São Paulo, essa linguagem pode fazer diferença. A queda da protagonista, a entrada na mansão de Arthur Brandão (Antonio Fagundes) e o contraste entre periferia e privilégio pedem exatamente esse olhar de composição e tensão.
O quarto motivo é o domínio do elenco. Sob sua direção, nomes como Chay Suede, Isabel Teixeira, Tony Ramos e Renato Góes tendem a ganhar não apenas espaço, mas temperatura dramática. Amora tem uma habilidade rara para extrair presença dos atores sem deixar que a cena vire grito gratuito. E, em Quem Ama Cuida, isso será essencial: a novela depende de uma mocinha injustiçada, de uma vilã com fome de herança, de um advogado dividido e de uma família milionária que transforma afeto em campo de batalha.
O quinto motivo é a parceria com Walcyr Carrasco. Os dois conhecem o caminho do grande público. Walcyr oferece a engrenagem do folhetim, com segredo, queda, vingança e redenção. Amora entra com a cadência, a imagem e o acabamento emocional. O sexto motivo está na própria declaração de método da diretora, ao falar de uma dramaturgia movida por ganchos, afeição e humor. É quase uma teoria prática do vício popular: dopamina para prender, ocitocina para envolver e endorfina para aliviar.
O sétimo motivo talvez seja o mais simbólico. Amora Mautner é uma mulher ocupando uma função historicamente dominada por homens e já escreveu seu nome no audiovisual brasileiro com uma assinatura própria. Não se trata apenas de dirigir bem. Trata-se de ocupar o comando criativo de uma superprodução, lidar com elenco numeroso, pressão de audiência, expectativa comercial e ainda imprimir uma visão reconhecível. Em uma indústria que muitas vezes celebra autores e atores antes de reconhecer a mão de quem organiza a cena, Amora se impõe pelo trabalho.
Por isso, Quem Ama Cuida chega cercada de expectativa. A sinopse tem força, o elenco tem peso e a trama possui os elementos clássicos de um novelão. Mas é a direção de Amora Mautner que pode transformar tudo isso em catarse popular. Se o primeiro capítulo conseguir unir tragédia, beleza, tensão e empatia, a novela não apenas começará bem. Começará com a marca de uma diretora que entende que o povo também gosta do que é bom.
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