Opinião

Allan Souza Lima faz de Tom uma presença incômoda e necessária em Quem Ama Cuida

Ator transforma o personagem em um retrato duro de controle, abuso emocional e violência cotidiana na novela das nove

Publicado em 08/06/2026

Alguns personagens não existem para seduzir o público, mas para obrigá-lo a encarar aquilo que muitas vezes prefere empurrar para debaixo do tapete. Em Quem Ama Cuida, Tom surge exatamente nesse lugar desconfortável. Ele não é o vilão grandioso, teatral, movido por planos mirabolantes. Seu perigo está no cotidiano, no gesto de controle, na palavra que diminui, na tentativa de transformar afeto em vigilância. É nesse terreno difícil que Allan Souza Lima constrói uma das presenças mais perturbadoras da novela das nove.

Tom (Allan Souza Lima) é controlador, abusivo e profundamente inseguro. Fiscaliza a esposa, impõe limites, tenta regular sua aparência e transforma a convivência em uma relação marcada por medo e submissão. O acerto da atuação está justamente na recusa do exagero. O ator não faz do personagem uma caricatura de agressividade. Ao contrário, trabalha em uma chave mais realista, mostrando como certos homens perigosos se escondem atrás de frases comuns, cobranças disfarçadas de cuidado e pequenas violências que, somadas, destroem a liberdade de quem está ao lado.

A trajetória do ator ajuda a explicar a força desse desempenho. Depois de trabalhos marcantes em produções como Cangaço NovoAmor Perfeito e Aquarius, ele reafirma uma característica cada vez mais evidente em sua carreira: a entrega total ao papel. Em Tom, cada olhar, cada pausa e cada explosão parecem nascer de uma mistura de fragilidade, arrogância e descontrole. O personagem causa rejeição porque é reconhecível. E talvez seja justamente esse o ponto mais duro. Ele não parece distante da realidade. Parece perto demais.

À medida que Quem Ama Cuida avança por temas como violência verbal, dependência emocional e relações abusivas, Tom tende a ganhar ainda mais peso dramático. O incômodo que provoca não é falha da novela, mas parte essencial de sua função narrativa. Allan Souza Lima entende que interpretar um personagem detestável exige coragem, precisão e ausência de vaidade. O resultado é um trabalho intenso, seco e eficiente, daqueles que não pedem simpatia ao público. Pedem atenção. E, nesse caso, a repulsa causada por Tom talvez seja o elogio mais contundente à atuação.

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