Nem sempre os personagens mais barulhentos são os mais difíceis de defender em cena. Às vezes, o maior desafio está em dar corpo a alguém que desmorona por dentro enquanto tenta convencer o mundo de que ainda está de pé. Em Quem Ama Cuida, Alexandre Borges encontrou esse ponto exato em Ulisses Brandão e transformou o personagem em uma das presenças mais sofisticadas da novela.
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Ulisses poderia ter sido apenas o irmão fracassado que vive à sombra de Arthur (Antonio Fagundes), o empresário poderoso da família. O texto oferece esse caminho, mas Alexandre Borges escolhe outro. Em vez de apostar no exagero, ele constrói um homem atravessado por uma tristeza permanente, marcado por olhares perdidos, silêncios incômodos e uma tentativa quase desesperada de preservar alguma dignidade.
O acerto da interpretação está justamente na contenção. Os problemas financeiros, a compulsão por apostas e a dependência emocional não surgem como caricatura, mas como sinais de um homem que já não consegue reconhecer a própria imagem. Ulisses não parece apenas endividado. Ele parece vencido. E é nessa nuance que o trabalho do ator ganha força.
A relação com Fábia (Flávia Alessandra) amplia essa sensação de ruína íntima. O constrangimento diante da esposa, o medo de ser descoberto e a vergonha de admitir o próprio fracasso tornam o personagem mais humano do que previsível. Alexandre Borges permite que o público veja a fraqueza de Ulisses sem transformá-lo em objeto de pena fácil.
Também pesa a comparação permanente com Arthur. Diante do irmão, Ulisses parece carregar uma mistura de dependência, ressentimento e humilhação. Não é apenas inveja. É a dor de quem sabe que perdeu o controle da própria vida e continua tentando ocupar um lugar que talvez nunca tenha sido realmente seu.
Em uma novela marcada por herança, poder e disputa familiar, Ulisses representa uma tragédia mais silenciosa. Ele luta contra algo menos visível, mas profundamente devastador: a sensação de ter falhado. Alexandre Borges entende essa ferida com precisão rara e faz dela matéria dramática de primeira grandeza.
O resultado é uma atuação que não pede aplauso fácil nem tenta roubar a cena pela força. Ela se impõe pela observação, pela maturidade e pela confiança no detalhe. Em Quem Ama Cuida, Alexandre Borges prova que uma dor silenciosa, quando interpretada com inteligência, pode ser tão impactante quanto qualquer grande explosão emocional.
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