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O espetáculo Ópera do Malandro chega ao palco com uma direção que não pede licença: ousada, provocadora, cheia de personalidade e sustentada por um elenco que parece ter sido alimentado à base de aplausos antecipados.
Mas sejamos honestos: o solo é da Geni. Ou melhor, da gigante Valéria Barcellos. Quando ela ataca a icônica Geni e o Zepelim, de Chico Buarque, a plateia faz aquilo que o teatro adora fingir que não acontece: interrompe antes do final e levanta para aplaudir. Sim, de pé. No meio. Sem combinar.
Entre novatos promissores e nomes como Totia Meirelles e Ernani Moraes, há uma curiosa comunhão: todos parecem sentir exatamente o que sentimos na poltrona. É menos atuação e mais confissão coletiva. Um grito de protesto, de liberdade… e, vá lá, de esperança.
E então, no meio da cena, cruza o palco uma bandeira símbolo do orgulho trans, marcada por tiros e sangue. Nada sutil. Ainda bem. Teatro bom não é aquele que cochicha — é o que cutuca com vara curta.
Só esse momento já justificaria esta nova leitura do clássico escrito por Chico Buarque em 1978. Mas o espetáculo quer mais. Ele flerta com o sagrado, convoca atabaques, passeia entre malandros e pombogiras, e transforma o palco num pequeno território de magia — daquelas que desalinham o espectador no melhor dos sentidos. Cada diálogo é um encantamento; cada canção, uma memória afetiva que chega sem pedir licença.
As gargalhadas não são gratuitas (raramente são). Cada pausa na respiração do elenco, cada oscilação vocal, parece milimetricamente calculada para nos prender ali, naquele limbo entre o riso e o desconforto. A história contada não é só verbal: é sensorial, é mística, é para pensar — o que, convenhamos, dá um trabalhinho.

E é sempre curioso ver um galã de novela, tanquinho em dia, completamente possuído pelo malandro. José Loreto, aqui, não é o galã. É o Max. E ponto final.
Sob a batuta de Jorge Farjalla, com o requinte visual de Marcos Griesi, o espetáculo capricha nos detalhes: cenário, luz, figurino… e, claro, no zepelim — que quase rouba a cena, mas sabe seu lugar no contrato.
Da plateia, só nos resta agradecer. Porque o que vocês entregam lá em cima chega aqui embaixo com força suficiente para lembrar que, o teatro sabe muito bem o que está fazendo. Viva.
Serviço:
A temporada vai até 15/03/2026.
Sexta 21h, Sábado 17h e 21h, Domingo 15h e 19h.
Teatro Renault em SP
Mais informações: http://instagram.com/operadomalandromusical
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