Opinião

Quem Ama Cuida: Claudia Souto escreve para milhões sem diminuir a inteligência de ninguém

Coautora da novela, a escritora combina olhar feminino, sensibilidade e sofisticação para provar que televisão popular também pode confiar plenamente na inteligência do público

Publicado em 25/07/2026

Durante muito tempo, os lugares de maior poder na dramaturgia brasileira foram ocupados majoritariamente por homens. Por isso, há algo especialmente significativo em ver Claudia Souto dividindo com Walcyr Carrasco a autoria de Quem Ama Cuida. Não apenas porque uma mulher chegou a esse lugar, mas porque seu olhar interfere no que vemos na tela. Há um tato feminino na observação dos afetos, das dores, das violências silenciosas e das contradições das personagens. Em um país em que as mulheres são maioria da população, ter uma mulher ajudando a decidir como essas histórias serão contadas não é detalhe. É parte da própria conversa que a televisão estabelece com o Brasil.

Claudia conhece como poucos a engenharia da televisão popular. Pega Pega, Cara e Coragem e Volta por Cima ajudaram a consolidar uma autora que sabe falar com o chamado povão sem jamais tratá-lo como uma abstração. Ela entende o humor, a emoção, o gancho e aquela frase que atravessa a tela e reaparece na conversa do dia seguinte. Mas sua qualidade talvez esteja justamente em recusar uma velha condescendência: a ideia de que, para ser popular, é preciso ser simplório. Claudia sabe que o povão também gosta do refinado. E escreve para ele com respeito.

Essa inteligência aparece ainda mais quando o assunto são mulheres complexas. Uma personagem como Brigitte (Tatá Werneck), por exemplo, poderia facilmente ficar aprisionada ao rótulo da mulher obsessiva. O olhar da dramaturgia procura seus vazios, rejeições e feridas sem necessariamente absolvê-la de seus atos. É uma diferença enorme. Humanizar não significa justificar. Significa compreender que ninguém é formado por uma única característica. Essa atenção à psicologia feminina acrescenta textura ao melodrama e permite que as personagens errem, machuquem, amem, fracassem e recomecem sem perder a humanidade.

Claudia Souto tem uma mente inquieta. Seu texto procura subtexto onde seria mais fácil entregar explicação, contradição onde caberia um estereótipo e delicadeza onde outros escolheriam apenas o grito. Ao lado da potência popular de Walcyr Carrasco, ela ajuda Quem Ama Cuida a encontrar um equilíbrio precioso entre alcance e elaboração. E como é bom ver uma mulher ocupando um espaço durante tanto tempo dominado por homens sem precisar reproduzir o olhar que encontrou ali. Claudia chegou com o seu. Feminino, popular, sofisticado e atento. Ela não escreve para milhões diminuindo o texto para alcançar milhões. Ela eleva a conversa porque sabe que o público é perfeitamente capaz de acompanhá-la.

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