Fim da Tradição

Globo desconversa sobre último especial de Roberto Carlos

Marca o fim da era dos requintados musicais televisivos

Publicado em 31/08/2024

As notícias não andam tão “azuis” como gosta Roberto Carlos. Por ironia do destino, o cantor pretendia encerrar 2024 com um mega evento no Maracanã para marcar os 50 anos de seu contrato de exclusividade com a Rede Globo. A impressão que se tem é de que alguém da produção contrariou suas ordens usando roupa marrom ou seu motorista o desobedeceu e engatou a marcha ré, atraindo a má sorte.

Primeiramente, o emblemático estádio carioca não estará com agenda disponível obrigando a produção a se contentar com o espaço Allianz, em São Paulo. E para piorar, pode ser que não exista mais o motivo para a comemoração, já que este pode ser o último especial natalino do artista.

Fim de uma Era Musical

Até mesmo o Rei corre o risco de perder sua majestade. A direção da Globo estuda retirar seu trono cativo com a retirada da grade de seu icônico espetáculo anual, mais tradicional do que rabanada e bacalhau nas mesas de Natal mais abastadas. Sendo assim, o próximo dezembro pode marcar a última temporada televisiva desse formato de sucesso mantido desde 1974.

O projeto RC — como é conhecido — é o último remanescente de uma fase em que o período natalino televisivo era marcado por grandes investimentos. O único com espaço cativo anualmente sempre foi o Rei. Mas outros grandes nomes da música brasileira e até internacional se revezavam engrandecendo as as programações de fim de ano não só da Globo, mas de praticamente todas as estações.

Essas atrações funcionavam como uma espécie de brinde ou presente oferecidos aos telespectadores. Ao mesmo tempo garantia um período de folga para os apresentadores titulares e suas produções, numa época em que as atrações não eram divididas por temporadas nem tiravam férias.

Indefinição da Globo

A emissora vem saindo pela tangente e até hoje não se pronunciou oficialmente sobre a quebra da tradição. Sempre que questionada aparenta querer desviar a atenção se limitando a falar sobre o próximo especial, sem efetivamente negar ou confirmar se será mesmo o derradeiro.

É fato que a empresa mudou radicalmente o seu modelo administrativo que lhe garantiu a supremacia de audiência por décadas. Mesmo com reflexos na qualidade e abrindo espaço para as concorrentes, vem encerrando quase todos os contratos renováveis e assim vai se desfazendo de seu banco de estrelas exclusivas. No entanto, a proposta que está sendo desenhada para o Rei terá um protocolo diferenciado do que está sendo imposto aos atores e novelistas, que é de pagamento e vínculo apenas por obra a ser realizada.

A Globo não quer perder o artista de forma definitiva de seu quadro de colaboradores podendo seu vínculo ser disponibilizado em participações das demais atrações do canal. A intenção seria apenas descontinuar o especial natalino em seu calendário. Acreditam os novos diretores que podem rejuvenescer a audiência ignorando sua migração acelerada para as mídias digitais e plataformas de streaming. E os que garantem a sobrevivência da TV aberta é justamente o público com mais idade, justamente a base do Roberto Carlos.

Tradição e Faturamento do Natalino

Apesar de ser um conteúdo caprichado, o programa sempre foi lucrativo nesses seus 50 anos. Suas cotas de patrocinadores e espaços comerciais são tradicionalmente vendidas com antecedência apesar do valor cobrado para o programa do Rei ser, em média, mais alto do que do que a tabela de outros produtos.

O salário de Roberto Carlos não é dos mais impactantes cabendo perfeitamente dentro dor orçamento do especial, diante do alto faturamento, audiência e prestígio que continua levando para a emissora. Até porque esse parece ser ser o ponto mais fácil de ser renegociado. O que garantiu a fidelidade de todos esses anos são os ganhos indiretos como o conforto de estar líder do segmento, a garantia de uma produção caprichada, a divulgação de seus shows e a permuta ou desconto em comerciais para venda de seus discos.

E foram justamente essas vantagens ressaltadas em 1974 pelo executivo José Bonifácio de Oliveira Sabrinho, o Boni, para convencê-lo a assinar seu primeiro contrato com a Globo. Na ocasião, ele estava inseguro em se atrelar novamente a uma estação de televisão diante do trauma causado pelo período de seu reaproveitamento profissional em outros programas da Record após o fim da Jovem Guarda.

E ainda entre as justificativas levantadas para o fim do programa está na redução do orçamento diante da qualidade histórica do conteúdo considerado pelo público e mercado como um produto premium. Sendo assim, as expectativas e cobranças são altas quando se trata desse especial. Não são poupados recursos em locações, cenários impecáveis, figurinos com as exigências cromáticas do Roberto, sua orquestra completa, verba confortável para execução e a presença de profissionais tarimbados na equipe.

Já a proposta para substituição sai quase de graça para os cofres da empresa. O espaço seria ocupado por alternância de shows de artistas mais novos, eliminação do pagamento de cachê com argumento da contrapartida da visibilidade e eliminação de uma produção de TV.

Se limitariam ao registro do show, sem roteiro específico para TV e de forma que possa ser gravado por uma equipe técnica mínima. Isso quando já não chegar a estação pronto para ser exibido após captado e finalização feito por uma produtora terceirizada e de preferência custeado pelo próprio artista ou do que restou das gravadoras.

Modelo Galvão Bueno

As novas bases contratuais estão sendo pensadas pelos setores artístico, jurídico e administrativo para um formato semelhante com o que foi fechado com o ex-número um do esporte, Galvão Bueno. A proposta é de permanência do artista no casting para garantir participações eventuais em programas da casa.

Assim como Galvão, a popularidade do Rei é considerada alta pelos executivos globais e podem funcionar como uma espécie de curinga capaz de alavancar as audiências através de suas presenças nas atrações da casa. Além disso mantêm forte apelo comercial que pode ser usados para viabilizar financeiramente outros projetos. O próprio Galvão foi usado estrategicamente durante as Olimpíadas de Paris numa aproveitamento já enquadrado neste novo modelo.

Negociação

A grande dificuldade é sobre como barganhar itens tão sensíveis e já enraizados. Principalmente por ser público e notório o temperamento metódico de Roberto Carlos e não muito adepto a mudanças radicais e quebras de rotinas. Mesmo que tudo seja acordado, a direção tem consciência de que um dos pontos mais complicados será administrar e garantir uma agenda mínima dele nos programas como prevê a proposta do novo modelo de atuação

Embora sempre solícito, nesses 50 anos de convivência, ele sempre impôs um rigoroso critério nos pedidos para concessão de entrevistas e nas participações especiais dentro das demais atrações globais fora da atuação em seu próprio especial anual. Precavida, empresa tem uma carta na manga para ser barganhada como prêmio de consolação. Depois de quase cinco décadas, o novo contrato firmado pode incluir uma reivindicação antiga. A emissora promete flexibilizar sua participação nos canais concorrentes.

Mesmo calcada na cordialidade, surgiram, alguns pontos de atritos no percorrer dessa longa estrada. quase sempre diante da radicalidade em permissões especiais para sua presença em outras emissoras. Na maioria das ocasiões era até providencial pois evitava que o próprio tivesse que negar. No entanto, alguns dos vetos causavam desconforto principalmente quando as solicitações partiam de amigos ou para homenagens recebidas.

Embora seja uma política administrativa válida para todos os seus contratados, as flexibilizações eram mais frequentes para outros funcionários. No caso do Rei, dá para se contar nos dedos das mãos as vezes em que recebeu esse salvo conduto o que ajudou a torná-lo a personalidade mais blindada midiaticamente da história da emissora.

Sílvio Santos impedido de entregar o Troféu Imprensa

Silvio Santos só foi colega de trabalho dele por dois anos. Nesse período em que transitava da música jovem para sua fase romântica, podia ser visto com certa regularidade no programa líder dos domingos. Com a transferência do comunicador-empresário para a Rede Tupi e depois para a Record-TVS-SBT os dois só voltaram a contracenarem em no mesmo palco em uma única vez.

O grande complicador é que continuava arrematando de forma consecutiva vários quesitos do Troféu Imprensa. Apesar de toda a insistência e perseverança peculiares de Sílvio Santos, este só conseguiu uma liberação depois de 21 anos de pedidos recusados. Reza a lenda de que o irredutível Boni só abriu a exceção depois de Sílvio ter incessantemente apelado ao dono da Globo, Roberto Marinho.

Sendo assim, só conseguiu pisar no palco para receber sua honraria em 1997. Prático e prevendo que essa poderia ser a última oportunidade — como realmente foi — o Homem do Baú aproveitou para entregar de forma retroativa as estatuetas amontoadas nos depósitos do SBT referentes aos anos de 1993, 1994 e 1995. O número só não foi maior pois as anteriores já tinham sido encaminhadas através dos Correios para o escritório da RC Produções no Rio de Janeiro.

O difícil encontro com Hebe Camargo

Companheira de Roberto Carlos desde os tempos em que trabalhavam na TV Record e admiradora declarada, a clemência só foi dada a Hebe Camargo, em 2010, sob o apelo emocional de ser uma cerimônia para marcar o retorno da comunicadora após uma de suas internações.

Lançado por Chacrinha, este nunca conseguiu tê-lo como atração na fase em que esteve fora da Globo. O cantor também não pode retribuir a ajuda recebida de Flávio Cavalcanti. Em 1973, num período de entressafra antes assinar com a Globo, era através do programa deste comunicador que o ex-Jovem Guarda manteve sua presença regular na mídia garantindo a manutenção de sua imagem, a venda de discos e o público em seus shows.

MTV acabou sem conseguir mostrar o Rei

O imbróglio entre a antiga MTV e a Globo perdurou por quase duas décadas, ao ponto da antiga estação musical acabar sem conseguir colocar no ar o programa Acústico que o Rei gravou na emissora do Grupo Abril. Além da dor de cabeça o incidente afetou diretamente as finanças do artista. Mesmo com a versão em CD tendo sido campeã de vendas, os empecilhos obrigaram à gravadora a retirando o álbum do catálogo.

Essa disputa foi fruto de uma espécie de pegadinha administrativa pregada Globo, diante da pressão do próprio Roberto que via na proposta da MTV uma oportunidade de rejuvenescer o seu público. Diante da insistência, permitiram a presença e gravação dele no estúdio da concorrente diante de um auditório formado basicamente por adolescentes. Por sinal, foram os únicos que tiveram a oportunidade de assistirem aquele momento histórico.

Os telespectadores nunca puderam acompanhar esse registro da nova plástica no velho repertório recheados de clássicos populares. Empresários, equipe, diretores da Abril e o próprio artista só descobriram depois de gravado, editado e pronto para ir ao ar de que a flexibilização concedida pela Globo não incluía a exibição pela concorrente.