Opinião

Adriana volta a respirar: a cena de liberdade que consagra a direção de Quem Ama Cuida

Sob direção de Nathalia Ribas e crivo artístico de Amora Mautner, saída da prisão de Adriana transforma gesto simples em poesia televisiva

Publicado em 08/07/2026

Há cenas que não precisam explicar a própria importância. Apenas acontecem, respiram diante do espectador e ficam. A saída de Adriana (Letícia Colin) da cadeia deu a Quem Ama Cuida um desses momentos raros em que a novela se afasta do resumo de acontecimentos e se aproxima da memória afetiva da televisão. Dentro do carro, abraçada à mãe, Elisa (Isabela Garcia), e ao irmão, Mau Mau (João Victor Gonçalves), enquanto Otoniel (Tony Ramos) dirige, Adriana não está apenas deixando a prisão. Ela atravessa uma fronteira invisível entre o cárcere e o mundo, entre a sobrevivência e a possibilidade de voltar a existir.

A beleza da cena está justamente na simplicidade. O carro em movimento, a família comprimida no mesmo espaço, o silêncio emocional de quem não sabe ainda como celebrar. Então Adriana coloca parte do corpo para fora e sente o vento no rosto. É um gesto pequeno, mas de enorme potência dramática. O vento entra como catarse, como banho simbólico, como primeira notícia de liberdade depois de seis anos de asfixia. A câmera não força a emoção. Ela acompanha. E, ao acompanhar, permite que o rosto de Letícia Colin traduza aquilo que nenhuma fala conseguiria organizar.

A direção de Nathalia Ribas, sob o crivo artístico de Amora Mautner, entende que a televisão também se faz de imagens que permanecem. Há precisão no tempo da cena, na confiança no corpo da atriz, na recusa do excesso. A liberdade de Adriana não surge como triunfo fácil, mas como um sopro ainda inseguro. Ela está livre, mas não inteira. Está fora da cadeia, mas carrega a cadeia dentro. É nesse intervalo entre alívio e trauma que a sequência encontra sua grandeza.

Nathalia Ribas confirma, com cenas assim, que é um nome para ficar no radar. Há uma delicadeza firme em sua condução, uma compreensão rara de que emoção não se fabrica no grito, mas no detalhe certo. Quem Ama Cuida acerta ao transformar uma saída da prisão em poesia televisiva: uma mulher ferida, cercada pelos seus, reencontrando o vento. E, por alguns segundos, o público também respira com ela.

O conteúdo veiculado nesta coluna é de total responsabilidade do colunista parceiro. As opiniões e informações aqui expressas não são de responsabilidade do Grupo Observatório.

Assuntos relacionados: