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Amora Mautner arma o bote, e Isabel Teixeira faz Pilar envenenar a cena em Quem Ama Cuida

Direção transforma gesto de falsa ternura em ameaça silenciosa, enquanto atriz leva ao limite a sofisticação cruel da vilã da novela das nove

Publicado em 22/06/2026

Há direções que apenas organizam uma cena, distribuem corpos no espaço e garantem que a narrativa avance. Outras fazem algo mais raro: pensam junto com a imagem. Em Quem Ama CuidaAmora Mautner tem exercido essa segunda forma de direção, aquela que não se contenta em mostrar o que acontece, mas sugere o que ferve por baixo do gesto. Na cena em que Pilar, vivida por Isabel Teixeira, se aproxima para um beijo no rosto em movimento brusco, quase instintivo, a diretora encontra uma síntese visual poderosa: o afeto como ameaça, a gentileza como armadilha, o beijo como bote.

A beleza da construção está justamente na ambiguidade. Pilar não precisa anunciar sua periculosidade, porque a cena faz isso por ela. O corpo avança, o rosto se aproxima, o gesto vem rápido demais para parecer apenas carinho. Há algo de animal e calculado naquele movimento, como se a personagem rastejasse por dentro da própria elegância antes de atacar. Amora transforma um gesto social em comentário dramático, criando uma imagem que o público entende antes mesmo de explicar para si: aquela mulher não acolhe, ela cerca.

Nada disso teria a mesma força sem Isabel Teixeira, atriz de repertório, palco e risco. Sua Pilar concentra o pior do ser humano sem cair na caricatura. Há vaidade, ressentimento, cálculo, violência e uma sofisticação moralmente apodrecida. Isabel entende que a vilania mais perturbadora não é a que grita, mas a que sorri antes de ferir. Por isso, quando a direção sugere o bote, ela entrega não apenas o movimento, mas a intenção que contamina o gesto. A atriz faz a maldade parecer pensamento em ação.

É nessa soma que Quem Ama Cuida ganha uma de suas camadas mais interessantes. Amora pensa fora da caixa sem esmagar o ator; ao contrário, cria espaço para que a interpretação floresça. Sua direção oferece a moldura, mas é Isabel quem injeta veneno na cena. Quando uma diretora sabe sugerir e uma atriz sabe executar, a televisão deixa de ser apenas narrativa e vira linguagem. Pilar, então, não é apenas uma vilã: é uma cobra cênica, armada pela direção e encarnada por uma atriz em pleno domínio de sua arte.

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