Há quem assista a Quem Ama Cuida e pergunte, com razão, por que tanta maldade precisa cair sobre uma única personagem. A resposta talvez esteja na própria natureza da novela. O folhetim não existe para oferecer uma vida justa desde o primeiro capítulo. Ele existe para dramatizar o desequilíbrio, escancarar a injustiça, fazer o público sentir raiva, pena, indignação e desejo de reparação. Sem conflito, não há novela. Sem queda, não há volta por cima. Sem ferida, não há catarse.
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A trajetória de Adriana (Letícia Colin) foi construída como um verdadeiro calvário. Ela perdeu a casa, o marido e a estabilidade em uma enchente devastadora. Depois, ao tentar reconstruir a vida, aproximou-se de Arthur Brandão (Antonio Fagundes), aceitou um casamento de conveniência e acabou tragada pela morte do milionário. Daí em diante, tudo pareceu conspirar contra ela: armações, depoimentos cruéis, suspeitas plantadas e uma condenação injusta a 12 anos de prisão. A mocinha foi empurrada para o fundo do poço para que o público entendesse, sem dúvida nenhuma, o tamanho da injustiça.
É claro que incomoda. Deve incomodar. Quando Pilar (Isabel Teixeira) manipula, quando Ademir (Dan Stulbach) se move com frieza, quando Tom (Allan Souza Lima) aceita depor contra ela, quando o presídio vira um novo território de ameaça, a novela está pedindo uma reação do público. A agressão na cadeia, a solidão, a mentira dita a Pedro (Chay Suede) para protegê-lo e o rompimento forçado com o grande amor não são maldades jogadas ao acaso. São degraus dramáticos. Cada violência sofrida por Adriana acrescenta uma camada à transformação que virá depois.
A televisão sempre soube que a mocinha perfeita, protegida demais, raramente sustenta uma grande história. O que prende o público é a personagem que cai, sangra, perde, se equivoca, sobrevive e volta diferente. Adriana não endurece porque a novela quis torná-la fria sem motivo. Ela endurece porque foi traída pela família que a cercava, pelo sistema que deveria protegê-la e por pessoas que preferiram salvar a própria pele. A maldade, nesse caso, não é enfeite: é o combustível moral da vingança.
Por isso, a 2ª fase nasce com tanta expectativa. Depois de anos presa, Adriana deixará a cadeia carregando marcas que não desaparecem com a liberdade. Ela não volta apenas para sorrir diante do mundo que a destruiu. Volta com sede de justiça, com outro olhar, outra postura e outra estratégia. A fisioterapeuta que entrou no presídio como vítima sairá como alguém que aprendeu, da pior maneira, que bondade sem defesa pode virar sentença.
E é aí que Quem Ama Cuida encontra sua força popular. A novela exagera porque o melodrama precisa do excesso para revelar verdades simples. Na vida real, muitas injustiças ficam sem resposta. Na novela, o público espera o acerto de contas. A maldade existe para preparar o prazer narrativo da reparação. Adriana sofreu demais, sim. Mas foi esse sofrimento que transformou sua vingança em uma promessa coletiva. O público não quer apenas vê-la livre. Quer vê-la de pé. Quer vê-la olhando nos olhos de quem a destruiu. Quer, enfim, que a novela faça aquilo que a vida tantas vezes não faz: devolver algum sentido à injustiça.
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