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Dan Stulbach transforma Ademir no rosto elegante da injustiça em Quem Ama Cuida

Como o advogado corrupto da novela das nove, ator entrega uma composição fria, estudada e incômoda, fazendo do julgamento de Adriana uma das sequências mais revoltantes da trama

Publicado em 19/06/2026

Há personagens que entram em uma novela para provocar ódio imediato. Outros, mais perigosos, fazem o público odiar não apenas suas atitudes, mas a lógica que eles representam. Ademir, vivido por Dan Stulbach em Quem Ama Cuida, pertence a essa segunda categoria. Ele não é apenas o advogado ambicioso que atravessa a história para destruir a vida de uma inocente. É a figura do homem que conhece as regras, domina a linguagem da lei e usa a própria inteligência como instrumento de violência. A perversidade, nele, não vem do descontrole. Vem justamente da ordem, da elegância, do cálculo e da absoluta falta de escrúpulos.

A entrega de Dan chama atenção porque há método em cada escolha. O ator parece ter estudado Ademir por dentro: a postura rígida, a fala segura, o olhar que mede o ambiente antes de atacar, o prazer discreto de quem sabe que possui poder sobre a narrativa. Nada soa gratuito. Em vez de construir um vilão espalhafatoso, Dan opta por um antagonista mais refinado e, por isso mesmo, mais perturbador. Ademir não precisa levantar a voz para humilhar, nem perder a compostura para esmagar alguém. Ele trabalha com a frieza de quem transforma a injustiça em tese, a manipulação em estratégia e a crueldade em desempenho profissional.

Essa precisão fica ainda mais evidente nas cenas do julgamento de Adriana, interpretada por Letícia Colin. Ali, Ademir deixa de ser apenas um advogado de ética questionável e se torna o rosto mais visível da engrenagem que condena injustamente a protagonista pela morte de Arthur, papel de Antonio Fagundes. A condução do tribunal, a pressão sobre testemunhas e a maneira como ele reorganiza os fatos para fabricar uma verdade conveniente provocam indignação legítima. O público sente vontade de avançar no personagem porque Dan consegue tornar aquele homem insuportavelmente real. Não é o vilão de novela gritando maldades. É o profissional brilhante colocando sua inteligência a serviço do erro.

O impacto de Ademir também reposiciona Dan Stulbach dentro da trama e de sua própria trajetória. Associado muitas vezes a personagens sofisticados, intelectuais ou atravessados por alguma humanidade, o ator usa justamente essa imagem a favor do incômodo. Em Quem Ama Cuida, a sofisticação vira ameaça. A cultura vira arma. A elegância vira máscara. Como marido de Dora, vivida por Mariana Ximenes, e pai de Pedro, interpretado por Chay Suede, Ademir ainda ganha camadas domésticas que ampliam sua complexidade: seu afeto é possessivo, seu senso de autoridade é sufocante, sua ideia de família parece sempre submetida ao controle. Dan compreende tudo isso com uma maturidade rara. E confirma, cena após cena, que está entre os melhores intérpretes de sua geração.

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