Foco na TV

Opinião: Amora Mautner faz de Quem Ama Cuida uma novela popular com alma de cinema

Diretora transforma o melodrama em obra visualmente pulsante e prova que o folhetim também pode ser biscoito fino

Publicado em 16/06/2026

A televisão brasileira sempre precisou de artistas capazes de escutar o barulho da rua sem abrir mão da sofisticação. Em Quem Ama CuidaAmora Mautner reafirma esse lugar raro. Sua direção entende que novela popular não precisa ser menor, apressada ou previsível. Ao contrário. Nas mãos dela, o folhetim ganha corpo, textura, ritmo e uma ambição estética que transforma o capítulo diário em experiência de grande escala. É como se a diretora entregasse um filme por noite, mas sem perder o compromisso essencial da novela: falar com muita gente, ao mesmo tempo, sobre dor, desejo, culpa, amor e vingança.

O talento de Amora está em não tratar o popular como concessão. Ela sabe que emoção também é linguagem, que o melodrama pode ter elaboração formal e que uma lágrima, quando bem construída, nasce tanto do texto quanto do enquadramento, da luz, do silêncio e da respiração do ator. Em Quem Ama Cuida, a direção não teme o excesso, mas sabe organizá-lo. A novela pulsa, ferve, grita quando precisa gritar, mas também sabe parar no rosto de um personagem e deixar que o público compreenda tudo sem que a cena explique demais. É o velho folhetim, sim, mas filmado com consciência de tempo, espaço e tensão.

Há algo de fascinante na maneira como Amora conduz a dramaturgia. A impressão é a de uma diretora pensando em muitas camadas ao mesmo tempo: a emoção imediata da cena, o desenho visual, a cadência dos intérpretes, a temperatura do capítulo e a necessidade de fazer a história avançar. Nada parece burocrático. Nada soa indiferente. Mesmo quando a novela aposta no golpe clássico, na virada forte, na frase que arrebata, existe ali uma inteligência de encenação que impede o drama de virar simples barulho. O popular, em sua direção, não é simplificação. É potência.

Em tempos de imagens descartáveis, Quem Ama Cuida se destaca justamente por parecer pensada, sentida e conduzida por alguém que conhece profundamente a televisão. Amora Mautner prova que novela pode ser espetáculo sem perder humanidade, pode ser melodrama sem perder refinamento, pode mirar o grande público sem abrir mão de assinatura. Sua direção faz do horário nobre uma espécie de cinema diário, com vocação popular e acabamento autoral. No fim, o maior mérito talvez esteja aí: transformar uma história feita para milhões em uma obra que ainda preserva o prazer raro do detalhe.

O conteúdo veiculado nesta coluna é de total responsabilidade do colunista parceiro. As opiniões e informações aqui expressas não são de responsabilidade do Grupo Observatório.

Assuntos relacionados: