A dificuldade de uma personagem nem sempre está no volume do drama que ela carrega, mas na contradição que obriga a intérprete a sustentar. Em Quem Ama Cuida, Brigitte Brandão surge como um desses papéis raros em que o riso não alivia a dor. Ao contrário, torna a dor mais desconfortável. Interpretada por Tatá Werneck, a personagem parece nascer de um desajuste permanente: é engraçada, excessiva, inconveniente, mas também profundamente quebrada.
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Brigitte não é apenas uma figura cômica inserida na novela das nove para respirar entre uma tragédia e outra. Ela carrega uma carência afetiva extrema, uma incapacidade quase infantil de lidar com rejeição e um comportamento que transforma desejo em vigilância. Persegue, monitora, invade espaços, cria perfis falsos, instala câmeras, humilha-se e agride simbolicamente os outros porque não sabe permanecer sozinha dentro de si mesma. É uma personagem que exige da atriz algo além do timing cômico: exige a coragem de mostrar o ridículo sem retirar dele a ferida.
Esse talvez seja o ponto mais delicado do trabalho. Tatá Werneck construiu uma trajetória associada à inteligência rápida, ao improviso, à comicidade verbal e à capacidade de desorganizar a cena com precisão. Brigitte, porém, não permite que a atriz se proteja apenas no humor. A personagem pede outra camada. Cada explosão precisa parecer absurda, mas também emocionalmente compreensível. Cada excesso precisa divertir e, ao mesmo tempo, revelar uma mulher sem eixo, sem amparo interno, marcada pela rejeição e pela convivência com Pilar, uma mãe fria, dominadora e incapaz de acolhê-la.
Há ainda uma distância brutal entre a vida afetiva de Tatá e o vazio de Brigitte. Filha de Cláudia Werneck, jornalista, escritora e ativista ligada aos direitos humanos e à inclusão social, e de Alberto Arguelhes, editor de livros, a atriz vem de uma família reconhecida pela palavra, pela criação e por uma ideia forte de pertencimento. Além disso, construiu com Rafael Vitti uma família pública marcada por afeto, parceria e harmonia, ao lado da filha Clara Maria. Interpretar Brigitte, portanto, é atravessar o avesso de sua própria experiência emocional: uma mulher que não sabe ser amada porque também não aprendeu a acreditar no amor.
Por isso, Brigitte pode ser vista como a personagem mais difícil de sua carreira. Não pela necessidade de abandonar a comédia, mas por precisar contaminá-la de sofrimento. A graça de Brigitte não nasce da leveza. Nasce do desespero. Ela pode invadir o apartamento de um ex com glitter, usar fotos da irmã em aplicativos ou transformar um encontro casual com Cléber em mais uma sequência caótica, mas nada disso existe apenas para provocar riso. O que está em jogo é uma mulher tentando preencher, de modo torto e destrutivo, um buraco afetivo que parece anterior a todos os romances.
Em uma novela cercada por crimes, heranças e vinganças, Brigitte representa outro tipo de tragédia: a tragédia íntima de quem transforma amor em posse porque não suporta a própria falta. Tatá Werneck, com sua comediante atriz, enfrenta o risco de tornar essa figura apenas caricata e faz o contrário. Dá a ela incômodo, humanidade e uma espécie de tristeza em movimento. O desafio está justamente aí: fazer o público rir de Brigitte sem esquecer que, por trás da superfície barulhenta, existe uma mulher emocionalmente abandonada tentando sobreviver ao próprio vazio.
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