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Opinião: Belize Pombal ocupa o poder em Quem Ama Cuida com uma presença rara

Atriz dá espessura a Silvana e transforma uma mulher ambiciosa em figura de tensão, cálculo e magnetismo cênico

Publicado em 12/06/2026

Há intérpretes que entram em cena para cumprir uma função dramática. E há intérpretes que, ao atravessar o quadro, alteram a pressão do ambiente. Belize Pombal pertence a essa segunda linhagem. Em Quem Ama Cuida, ela não trata Silvana Vaz Brandão apenas como uma mulher rica, ambiciosa e habituada ao mando. A atriz compreende que o poder, quando bem encarnado, raramente precisa se anunciar aos berros. Ele se instala no olhar que demora um segundo a mais, na pausa antes da resposta, no sorriso que parece cordial, mas carrega ameaça.

Silvana poderia facilmente cair no território conhecido da personagem calculista, desenhada apenas pelo interesse e pela frieza. Belize, porém, recusa o atalho. Sua composição tem dureza, sim, mas também tem subtexto. Há uma mulher que mede o espaço antes de ocupá-lo, que observa antes de reagir, que parece entender o valor de cada silêncio. É nessa precisão que a personagem ganha espessura. A vilania, quando existe, não aparece como ornamento. Surge como consequência de uma postura diante do mundo, de uma forma de se proteger, controlar e sobreviver dentro de uma família movida por dinheiro, herança e ressentimento.

Essa segurança cênica não nasce do acaso. Belize carrega uma trajetória de formação e trabalho que se nota no modo como sustenta a cena sem depender do efeito fácil. A passagem pela Escola de Arte Dramática da USP, a vivência teatral desde cedo e a experiência em personagens de naturezas muito distintas ajudam a explicar a amplitude de sua entrega. Ela foi Consuelo em Vale Tudo, com uma presença afetiva e precisa. Foi Quitéria em Renascer, atravessada por dor, brutalidade e resignação. Foi Jeísa em Justiça 2, trazendo para a tela a força cotidiana de uma mulher marcada pela luta. Em todas, havia uma atriz interessada menos no brilho imediato do que na verdade interna da personagem.

Em Quem Ama Cuida, Belize parece plenamente consciente do lugar que ocupa. Sua Silvana não é apenas uma peça no tabuleiro dos Brandão. É uma força que tensiona o núcleo, uma presença que reorganiza o ar ao redor, uma mulher que calcula sem perder densidade humana. A atriz domina o poder pelo olhar, pela respiração, pela economia do gesto. E confirma algo que a teledramaturgia sempre prova quando encontra uma intérprete à altura: personagem ambiciosa qualquer texto pode escrever; personagem perigosa, viva e cheia de sombras só uma grande atriz consegue sustentar.

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