Opinião

Amora Mautner e o destino dos gênios incômodos: Por que os maiores talentos costumam ser os mais atacados

Enquanto nomes como Kubrick, Lars von Trier, James Cameron e as irmãs Wachowski enfrentaram resistência antes de serem reconhecidos como visionários, a diretora de Quem Ama Cuida reafirma seu lugar entre os criadores que transformam a linguagem audiovisual e desafiam consensos fáceis

Publicado em 04/06/2026

Existe um padrão curioso na história do audiovisual. Quase todos os criadores que alteraram profundamente a linguagem de seu tempo passaram, antes, pelo tribunal permanente da desconfiança crítica. Alguns foram chamados de excessivos. Outros, de pretensiosos. Houve quem fosse acusado de fazer arte demais e quem fosse acusado de fazer arte de menos. O tempo, esse crítico muito mais rigoroso do que qualquer coluna de jornal, costuma agir com menos ansiedade. E quase sempre absolve os ousados.

Stanley Kubrick viveu isso. Hoje é tratado como um monumento cultural, mas viu 2001: Uma Odisseia no Espaço ser recebido por parte da imprensa como um exercício frio e interminável. James Cameron ouviu durante décadas que seus roteiros eram simplórios, enquanto reinventava os limites tecnológicos do cinema. Lars von Trier continua provocando reações quase físicas em parte da crítica, ao mesmo tempo em que permanece como um dos cineastas mais influentes das últimas gerações. Zack Snyder talvez seja o caso mais emblemático da era digital: amado por multidões, rejeitado por boa parte da crítica tradicional, dono de uma assinatura visual imediatamente reconhecível.

O fenômeno não acontece apenas no cinema. A televisão brasileira conhece bem essa dinâmica. E poucos exemplos recentes ilustram isso com tanta clareza quanto Amora Mautner.

Há anos, a diretora ocupa uma posição singular na dramaturgia nacional. É reverenciada dentro da indústria, estudada por jovens realizadores, admirada por atores e autores, mas frequentemente submetida a um tipo de escrutínio que raramente atinge profissionais de impacto semelhante. Não importa o tamanho do sucesso. Não importa a repercussão popular. Em algum momento surgirá alguém disposto a atribuir seus resultados ao acaso, ao excesso ou à sorte.

O curioso é que a própria obra desmonta essa tese.

Filha de Jorge Mautner, criada em um ambiente onde arte e pensamento crítico eram parte da vida cotidiana, Amora começou diante das câmeras antes de migrar para os bastidores. A trajetória poderia ter seguido um caminho convencional. Não seguiu. Ao longo de três décadas, ela ajudou a modificar a linguagem da telenovela brasileira de forma talvez mais profunda do que muitos estejam dispostos a admitir.

Quando Avenida Brasil explodiu como fenômeno cultural em 2012, o público percebeu imediatamente que havia algo diferente acontecendo na tela. Os personagens falavam por cima uns dos outros. As cenas pareciam respirar. A câmera deixava de observar para perseguir a ação. Havia uma urgência narrativa que aproximava o folhetim do documentário, do cinema e da vida real. Não foi um acidente. Foi método.

Desde então, Amora passou a construir uma assinatura que poucos diretores conseguem alcançar. Existe uma diferença fundamental entre dirigir bem e criar uma linguagem própria. Bons diretores existem muitos. Autores da direção são raros.

Em Cordel Encantado, trouxe uma estética que transformava o sertão em fábula. Em Joia Rara, conquistou reconhecimento internacional. Em A Regra do Jogo, espalhou câmeras pelos cenários como quem desmonta as paredes invisíveis do estúdio. Em A Dona do Pedaço, encontrou o equilíbrio entre espetáculo popular e sofisticação formal. Em Verdades Secretas II, assumiu riscos que poucos diretores aceitariam correr em uma produção de grande alcance.

Agora, em Quem Ama Cuida, talvez esteja entregando um de seus trabalhos mais maduros.

A novela poderia seguir caminhos convencionais. Não segue. Há uma preocupação permanente com movimento, textura e atmosfera. Personagens raramente permanecem estáticos. Conversam enquanto vivem. Caminham, cozinham, atravessam a cidade, respiram o cenário. Parece um detalhe. Não é. Trata-se de uma filosofia de encenação.

O assassinato de Arthur Brandão é um exemplo eloquente. A sequência foi construída com um rigor visual incomum para a televisão diária. Sombras, enquadramentos, silêncio e tensão trabalham juntos para produzir uma sensação que remete mais ao suspense cinematográfico do que ao melodrama clássico. Não por acaso, espectadores passaram a identificar referências que vão de Alfred Hitchcock a Brian De Palma.

É nesse ponto que a discussão deixa de ser sobre gosto pessoal.

Pode-se gostar ou não de um criador. Pode-se preferir uma escola estética a outra. O que não se pode fazer é ignorar a influência. E influência é justamente o que define os grandes nomes da história audiovisual.

Terrence Malick dividiu plateias enquanto transformava a luz natural em linguagem. Gaspar Noé foi acusado de fazer cinema do choque enquanto revolucionava a experiência sensorial da câmera. As irmãs Wachowski ouviram durante anos que eram excessivas antes de verem suas ideias moldarem a ficção científica contemporânea. Michael Bay continua sendo ridicularizado por parte da crítica enquanto sua gramática visual é copiada em produções do mundo inteiro.

Os grandes criadores frequentemente vivem esse paradoxo. São atacados porque ocupam espaço demais. Porque provocam reação demais. Porque possuem estilo demais.

Amora Mautner pertence a essa linhagem.

Não porque seja unanimidade. Unanimidade raramente produz inovação. Mas porque compreendeu algo fundamental: televisão popular não precisa ser sinônimo de acomodação estética. Pode ser sofisticada sem perder alcance. Pode dialogar com milhões de pessoas sem abrir mão da ambição artística.

Talvez seja justamente isso que incomode alguns observadores.

Os gênios mais interessantes nunca foram aqueles que agradaram a todos. Foram aqueles que obrigaram todos a reagir.

E, nesse aspecto, Amora Mautner já garantiu seu lugar na história.

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