Há um ritual curioso no audiovisual brasileiro que se repete com precisão quase burocrática. Basta Amora Mautner assumir uma novela ou Tatá Werneck estrear um novo personagem para surgir a rodada de avaliações antecipadas, diagnósticos instantâneos e rótulos prontos. Amora é dura demais. Tatá faz sempre a mesma coisa. O julgamento vem antes da estreia, antes da curva dramática e, muitas vezes, antes da primeira semana de exibição terminar. É uma cobrança que parece vir embalada como análise, mas frequentemente nasce de outro lugar.
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Não deixa de chamar atenção que certas observações apareçam com uma insistência quase exclusiva quando o assunto são mulheres em posições de poder criativo. Diretores homens rigorosos costumam ser chamados de perfeccionistas. Mulheres rígidas recebem outras leituras. Humoristas homens passam décadas lapidando um estilo e são celebrados pela assinatura própria. Já mulheres, quando criam uma marca reconhecível, escutam que repetem fórmulas. Existe aí uma diferença de régua que o audiovisual ainda não resolveu encarar de frente.
Mas há outro ponto importante nessa conversa. Amora Mautner e Tatá Werneck não chegaram apenas para ocupar espaço. Elas abriram caminhos. Em ambientes historicamente comandados por homens, transformaram presença em linguagem, autoridade em trabalho e talento em permanência. O audiovisual brasileiro ainda carrega estruturas profundamente machistas, especialmente nos bastidores de poder, onde mulheres muitas vezes precisam provar competência mais vezes, mais cedo e por mais tempo.
Tatá Werneck construiu uma trajetória rara. Saiu da MTV com uma velocidade mental impressionante, atravessou o humor, explodiu nacionalmente com Valdirene em Amor à Vida, transformou o improviso em linguagem própria e criou no Lady Night um produto que carrega sua identidade do começo ao fim. Tatá não ocupa espaço porque faz barulho. Ocupa porque criou uma voz reconhecível. E isso, na televisão, é patrimônio. Sua trajetória também abriu portas para outras mulheres entenderem que irreverência, inteligência e liderança podem caminhar juntas sem pedir licença.
Com Amora Mautner acontece algo parecido. Sua assinatura visual e narrativa é tão evidente que o público identifica sua mão em cena. Foi assim em Cordel Encantado, Avenida Brasil, A Dona do Pedaço e tantos outros projetos que ajudaram a redefinir o ritmo da dramaturgia brasileira. Existe um motivo para ela ser frequentemente chamada para assumir produções decisivas: Amora entende o encontro delicado entre sofisticação estética e comunicação popular. Sabe algo que nem todo mundo aprende: o público gosta de novidade, mas também gosta de se reconhecer.
Existe força simbólica em mulheres como Amora e Tatá. Porque elas não apenas chegaram a lugares difíceis. Elas permaneceram. E permanecer, para uma mulher em posições tão expostas, ainda é um ato de resistência. Ao longo do caminho, abriram portas para outras profissionais, desafiaram expectativas e provaram que talento feminino não precisa caber em moldes pré-aprovados.
No fim, talvez a explicação seja mais simples. Amora Mautner e Tatá Werneck carregam um efeito que costuma provocar reações intensas: furam a bolha. E quem fura a bolha quase nunca passa em silêncio. Porque, antes de serem unanimidades, nomes brilhantes costumam ser apenas nomes muito observados. E poucas pessoas hoje são tão observadas quanto elas.
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