Opinião

Quem Ama Cuida já revela nas primeiras imagens a marca sofisticada de Amora Mautner

Nova novela das nove da Globo estreia cercada por uma percepção rara na TV aberta: a de uma obra popular concebida com ambição estética, rigor visual e absoluto entendimento de público

Publicado em 12/05/2026

Há diretores que conduzem novelas. E há autores de linguagem. Nas primeiras chamadas de Quem Ama Cuida, Amora Mautner já deixa evidente que pertence ao segundo grupo. Existe uma assinatura reconhecível no modo como a câmera respira, na arquitetura emocional dos enquadramentos e na forma como luz, figurino, cenário e interpretação se fundem numa mesma narrativa visual. Antes mesmo da estreia, a produção já transmite uma impressão difícil de fabricar artificialmente: a de acontecimento televisivo.

Ao longo de sua trajetória, Amora ajudou a redefinir a estética contemporânea da teledramaturgia brasileira sem jamais romper com o DNA popular da novela. Avenida Brasil talvez tenha sido o marco mais visível dessa transformação, mas sua filmografia revela algo ainda mais sofisticado: uma diretora que entende ritmo dramático como experiência sensorial. Em suas mãos, a cena cotidiana ganha densidade cinematográfica sem perder clareza narrativa. E isso exige um talento raro na televisão diária.

Quem Ama Cuida parece nascer justamente desse encontro entre refinamento técnico e comunicação de massa. A parceria entre Walcyr Carrasco e Claudia Souto encontra na direção de Amora um acabamento visual que eleva a dramaturgia sem torná-la inacessível. Há um cuidado quase artesanal na composição dos ambientes, na direção de elenco e na escolha estética de cada núcleo. Tudo sugere uma obra construída por profissionais que compreendem que excelência visual não afasta o público. Ao contrário. O espectador popular também deseja beleza, sofisticação e acabamento de alto nível. E sabe reconhecê-los imediatamente.

Num cenário audiovisual frequentemente dominado pela pressa e pela repetição estética, Amora Mautner segue operando num outro registro. Suas novelas carregam identidade. Não parecem produtos industriais embalados em série. Parecem obras pensadas, lapidadas e dirigidas por alguém que ainda acredita na força cultural da novela brasileira. Só as chamadas de Quem Ama Cuida já bastam para deixar uma impressão cada vez mais rara na televisão aberta: a de que vem aí uma produção grande em todos os sentidos.

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